Mostrando postagens com marcador adolescência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador adolescência. Mostrar todas as postagens

Caren


Obrigada por ter me perdoado.

Conheci muita gente em minha vida. Mas as melhores pessoas talvez tenham sido as que eu menos entendi. Deve ser porque, quando gostei de alguém de verdade, em quem confiei e me confidenciei, em determinado momento, quis também que a pessoa agisse como eu. Quantos de nós somos exatamente assim, e honestamente, sem querer?

Piaget* já fazia menção em seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo e psicológico da criança e também do adolescente, a essa tendência marcada do egocentrismo e seu papel fundamental na vida humana. Ele descreveu o Egocentrismo Adolescente como necessário ao processo adaptativo do indivíduo na sociedade. Um processo que, digamos, em algumas pessoas dura para além da idade adulta (mas não é esse o caso).

O que quero dizer é que, a mais ou menos quatorze anos atrás, eu errei feio com uma amiga, que era para comigo puro carinho e cumplicidade. E, simplesmente, eu a tirei de minha vida. Arranquei dela uma oportunidade de falar, a julguei, dei valor a mesquinharias, coisas que não importavam, por eu ser egoísta. Sem lembrar, que, em comum, também tínhamos o gosto da leitura, e, muitas vezes, ela me explicava sobre o sentido do altruísmo. Foi aí que cheguei em Piaget. Foi aí que não me enxerguei como eu realmente era. Que loucura é essa na psique humana, onde a gente pensa que vê, mas está cego? E, então, eu me deprimi muito, mas não pedi desculpas. Não vou elucidar ao leitor o porquê do que me fez fechar a cara para Caren, pois essa é uma carta de reconciliação. Uma carta de agradecimento. Uma carta sem mágoa.

Acontece que há mais ou menos um ano, encontrei-a em uma rede social. Queria pedir desculpas a ela, mas não tinha ideia se isso funcionaria. Afinal, vivenciamos e vemos todos os dias, essa incapacidade humana, de não perdoar de coração as falhas do seu semelhante, o que custamos a pôr em prática na vida cotidiana. Agora a moda é amarrar em um poste nossa própria desgraça, e açoitá-la como nos tempos de escravidão. Assim não teremos de lidar com o fato de que o errado da nossa sociedade é sua própria hipocrisia.

Numa época em que eu sabia que podia voar e ser quem eu quisesse, conheci uma amiga chamada Caren. Tínhamos muita coisa em comum. E deixei todo o comum de lado, para me apegar a pequenas coisas.

Mas ela não foi pequena como eu. Ela me concedeu suas desculpas. Concedeu-me um sorriso ao ler que (nas palavras dela)- “as pessoas se afastam por coisas bobas”...

Mas a melhor coisa que eu li foi: “O importante é que temos maturidade para não transformar este afastamento em mágoa e, sim, em uma surpresa agradável.”

Obrigada Caren. A grata surpresa de minha vida é saber que a pessoa que você é, eu quero me tornar.

Luiza Versamore


**O nome real de Caren foi preservado.




Livro Fechado

 Não é culpa de ninguém que eu seja tão fechada. Ou talvez seja culpa minha. Penso que estarei perturbando ao relatar que sofri, alguma vez. A avó tenta saber, pergunta com cuidado, e dou risada no meu íntimo, porque sei que falarei uma meia verdade contida e ficará tudo bem. Ela talvez ache que sabe algo do que passei, que consegui transpor os traumas de infância, que sou bem resolvida quanto à adolescência e aos sofrimentos passados. Eu deixo. Não me perturbo por isso mais. É um sofrimento que iria perturbar pessoas que estão de bem com a vida, e daí surgiria a relatividade da culpa, e aquilo que acredito que seja algo que possa ferir. Tem coisa que tem que ficar presa, pois se sair estraga tudo.

Estive a ponto de contar que um dia também sofri como um cão sem dono- boa estrofe de música ruim... as músicas ruins estão pra nossa “dor de corno”, como o chocolate quente está para o inverno. Só que tem um inverno que dura pra sempre dentro de nós, então é melhor nem tocar na existência dele, deixá-lo congelado e amortecido.

Me dei conta de que nunca contei uma dor de amor a ninguém, pelo menos não tal qual ela foi. Os detalhes que machucaram, os fatos que feriram. Sempre sufoquei o pior. Sorri quando queria era me atirar da ponte. Mas não invejo quem consegue contar sua dor, não mesmo. Acho que tem um tom de lástima que a gente não precisa expor a todo tempo: faz você parecer que foi o único que sofreu no mundo, na vida, em todos os tempos, a maior dor do universo. Só que todo mundo já sofreu assim, sinto em dizer.

De todas as dores, a que mais me cala é a da infância. Eu tive o carinho que bastava pra uma menina pensadora, que vagava sozinha por pensamentos confusos, por adultos confusos. Um carinho de avós, grande, mas de substituição. Fui preterida muito cedo, e me senti excluída e esquecida muitas vezes. Não, vocês não irão entender, porque está tudo trancado. Não vou explicar.

O adulto que somos jamais esquecerá a criança que fomos.

 Amar se aprende, é isso? Será que é mesmo preciso que nos ensinem a amar? A não desdenhar dos sentimentos e sonhos de quem amamos? Talvez.

Somos seres imperfeitos demais para julgar a dor de alguém que a expõe. Mas respeite quem tem a sua dor recolhida, também. Quem não escandaliza os sentimentos. Existem bons motivos para que fiquem lá, num canto aonde somente eu possa ter acesso.

Um pouco de justiça no seu argumento, e talvez consiga entender que desconhece minhas mais profundas dores. Nem por isso farei disso o lema de minha vida, pois quem sou hoje, não reflete a amargura que vivi. Decidi que teria que ser doce com quem amo, como espero de quem amo, ou esperei. Teria pavor de viver nesse mundo crendo que sou uma vítima.

Mas não pense que eu esqueci.

Luiza Versamore


 “Frias vidraças dentro de mim,
Passa o inverno, mas não passa, não
Essa geada em meu coração.”
                                        Nara Leão





Santa Maria


Um dia antes da tragédia ocorrida em Santa Maria, minha cidade natal, eu estava lá. Fui ver minha irmã Elis em sua apresentação teatral, última obra sua para encerramento de seu curso de Artes Cênicas, na UFSM*.  Foi um espetáculo lindo, digno de uma Beatriz de Chico Buarque**.

Fazia anos que não revia minha cidade. Sempre morei com minha família em uma cidade de fronteira, longe dali, foi somente quando saí do Ensino Médio, no ano 2000, que pude retornar a Santa Maria para estudar. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa de meu viver.

Os jovens que vão a Santa Maria pra estudar, como brinde, ganham um “cursinho básico” para a vida. Você é jovem, tem pouca grana (como eu e minha prima Nessa, na época que moramos juntas), pouca experiência, costumes e manias ‘imutáveis’ de adolescente, questionamentos e dilemas que beiram à adultez, vontade de correr atrás dos ideais reclusos na cidade pequena de onde veio, cara e coragem pra lutar.

E então, desde o primeiro dia morando sozinho, você começa a aprender. Primeiro, o choque doméstico. Você fica espantado como pode a sua roupa toda de repente sumir! Não existe uma peça limpa! Você abre automaticamente mil vezes o guarda-roupa esperando que elas se materializem limpinhas, cheirando a amaciante Fofo, e então, quando a última toalha limpa acaba: BUM! O que fazer? Parece muito simples: lavar à mão? Não é. Juntar dinheiro pra comprar uma máquina de lavar? Entre comer e pagar o Cursinho... Não é.

Estudante bom que se preze, emagrece uns cinco quilinhos no primeiro ano fora de casa! Primeiro porque acha que Nissin Miojo vai dar conta até o final da faculdade. Segundo porque acha que nunca vai ter uma dor de barriga brutal em função do velho Xis da esquina requentado (e vai parar no Pronto Socorro por conta disso). Terceiro porque às vezes ele tem que morar em um pensionato esquisito, onde a dona não deixa ele usar o fogão (sim, isso existe). E, adicionando um quarto elemento, os lugares que existem para os Universitários comerem a um preço razoável, não tem uma comida tããão razoável assim.

E também tem aquele maldito, chato e insuportável sono de adolescente. Em virtude de que agora você deve cuidar de si próprio sem direito a uma folguinha (e, se trabalha, ou estuda pra passar num vestibular de Medicina, mais), é aqui que a coisa desanda. Porque agora você divide tarefas com jovens como você, dentro da República onde mora, e hoje é seu dia de limpar o banheiro. Porque hoje é seu dia de reunir a grana da galera e enfrentar a fila do banco pra pagar as contas, antes que cortem a luz. Porque hoje, mesmo com enxaqueca, é seu dia de conversar com o cara da imobiliária pra ele fazer um conserto no apê. Não tem o dia da mamãe ou da vovó reconfortando o cochilo despreocupado no sofá da sala. E você “cai duro” na cama, dormindo em meio ao amuado pensamento, questionando se foi a melhor hora de sair de casa.

Então um dia você volta à sua cidade, como eu voltei. E, andando de ônibus até a Cidade Universitária, você se lembra de tudo, e ao invés de chorar, sorri. E agradece por ter vivido aquilo. Passa pela Avenida Presidente Vargas relembrando o velho tênis que percorria a cidade atrás de uma aula de Matemática melhor. Sonhava em que sobrasse uma graninha do apertado orçamento estudantil pra poder comprar uma calça jeans legal, quando via a loja bonita, na esquina do Calçadão. Ou talvez fosse melhor investir no rodízio de pizzas, lá na Medianeira. Ou ir numa festinha ou barzinho, comemorar todos os novos aprendizados da vida, incluindo aquela nota boa na última redação.

Não sei o que é mais injusto nesta hora. Ser pai e mãe e compartir uma dor fulminante dessas, pensando em todos esses familiares e sua perda inestimável, ou ser filha e filho, e pensar que nós vivemos como esses filhos e filhas. Nós estivemos lá, em Santa Maria, durante anos, aprendendo, realizando, tentando o nosso melhor. Nós acordamos no meio da noite, barriga roncando e sonhos incompletos, tentando nosso melhor. Nós não desistimos, apesar de tudo o que vivemos, porque nossos sonhos eram grandes demais para permitir a derrota. Nós fomos como eles, e não permitimos a estagnação e a desculpa furada de não poder fazer nada porque só podíamos fazer um pouco.*** Nós aprendemos.

Saí de Santa Maria no sábado à tarde, algumas horas antes do incêndio na boate. Estive a viagem inteira pensando em tudo que vivi, ora me emocionei, ora quis gargalhar. No dia seguinte, o fato horrível me acorda, e eu agradeço por minha irmã e meus primos estarem bem. E foi só o que eu consegui fazer.


Foi em Santa Maria que aprendi a lição mais valiosa de minha vida, e tão antagônica a este momento. Nunca esquecerei. Eu aprendi a viver.

Luiza Versamore

                                           Arte de Alpino

*UFSM: Universidade Federal de Santa Maria
**Beatriz de Chico Buarque: confira aqui
***citação de Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.


Fausto


Foi um tempo bem legal, o que passou. Mas já faz tempo mesmo, que pena. As coisas tomaram uma enorme distância do que eram naquela época. Não nasci pra esse tipo de ridicularização dos pensamentos, dos argumentos, embora vez ou outra me sinta tentada a inverter o que se passa em minha cabeça através das infanto-juvenis frases feitas das redes sociais. Mas é um segundo e passa essa vontade tosca de contestar bobagem. Prefiro pregar lá no meu mural algo útil, que preste realmente a alguém ou a alguma causa. Até mesmo uma poesia ou uma música, que tem muito mais serventia pra alma de quem lê. Fiquei pensando numa coisa que minha mãe me disse, que através do mural do Facebook todo mundo “É” perfeito.

Sabe, no meu tempo existiam várias tribos. Todas eram formadas de gente muito diferente, e olha que coisa incrível, tinham os que se achavam certos e estavam bem errados (acho que nunca se deram conta disto), e tinham os que se achavam erradíssimos e viram lógica pra tudo um tempo depois. Veja como a vida é, sempre ensinando que estática mesma, só a própria palavra, que sempre será uma proparoxítona e por si só continuará a levar acento na cabeça!

Bem, mas haviam várias tribos... E eu lembro bem dos certinhos, dos chatinhos que queriam mandar na turma, alguns com aquele perfil quase sociopata, que se candidatavam a presidente da turma (por sorte, minha escola era pública e a molecada não colocava “cdf” pra comandar nada). O que eu quero dizer é que, apesar de não ser a rainha das matérias, eu sempre fui bem estudiosa. Não só na escola, em todo o tempo de faculdade também. Eu sempre fui responsável, de trazer caderno de tarefa de casa feitinho, todos os dias. Sempre fiz questão de fazer meus próprios trabalhos, e o trabalho de mil colegas que levei “nas costas” e nunca fiquei azeda por isso. Tenho certeza que ganhei bastante conhecimento assim, quem sabe talvez meus colegas “encostados” tiveram que penar mais um pouco pra aprender o mesmo, sei lá. Sempre tive essa consciência de que o saber era bem na onda do Paulo Freire, que pensou assim- “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

Conheci poucas, três pessoas, pra falar a verdade, do meu tempo de faculdade, que se mantiveram serenas frente a todo o saber que tinham. Não por acaso, foram os melhores alunos da faculdade. Eles não impuseram seus estudados e vigorosos conceitos a cada oportunidade de uma conversa informal. Só essas três pessoas, de muitas mais de cem, não fizeram o papelão de explicarem ou tentar explicar temas de medicina na tentativa de aparecerem ou se exibir para os colegas. Ou mesmo fazer com que o colega se sinta um pouco envergonhado por não ter aquele conhecimento arrasador, ui todo! Talvez isso exista em todas as profissões, não duvido de mais nada.

Resulta que em uma das tribos da sétima série vivia o Fausto, coleguinha desde a terceira, famoso por ser o melhor estudante da turma, e não só isso. Fausto nunca fora Faustinho. Fausto era exemplar. Nunca uma nota vermelha. Nunca uma chamada de atenção dos professores. Nunca uma falta grave, nem leve. Até que um dia, a vida nos uniu.

A nossa turma estava impossível e os professores resolveram destituir do cargo o presidente da turma que não estava fazendo nada pelo bem da classe. Nova votação. Ninguém queria assumir, pois, dali pra frente a banda ia ter que tocar direito. “-Quem se candidata?”- Fausto levanta a mão, com olhos radiantes. “-Tem que ter mais um candidato, senão fica o Fausto mesmo!”- Falou o professor doidinho pra que o Fausto ficasse. E era meu tempo da “zoação”, da “idiotagem”. Levantei a mão. Aplausos. O professor nem deu bola, mas as colegas adoraram.

Fiquei de vice do Fausto. E aí Paulo Freire se concretizou nas nossas vidas. Toda a brincadeira ficou de lado, e quando eu vi estava montando planilha de objetivos pra turma 71, cartazes com a missão da turma, pedindo silêncio pra aula prosseguir, colaborando com o professor para os colegas não serem zoados (o famoso bullying). Comecei a conviver com meu colega exemplar e, aos poucos, fui descobrindo que complexos desafios ele enfrentava em sua vida. A primeira problemática começou semanas depois, com os outros meninos tirando sarro do Fausto, pelo jeito um tanto delicado afeminado, que ele mostrava. Se ele pedisse silêncio não resolvia nada, imediatamente começava a zoação. Então eu levantava, com cara de má, e voz de gralha, e todo mundo se aquietava. Fausto fechava a cara, quieto. Às vezes, quando a “cutucada” era grande, contra-atacava xingando os homofóbicos juvenis da turma, de “burros”, na tentativa de que eles se ofendessem e provassem um pouco de sua dor.

Alguns meses se passaram e ele abriu o jogo comigo. Com mais confiança em nossa amizade, começou a relatar-me o que acontecia em casa. O pai rígido, que o obrigava a escrever um caderno inteirinho com o mandamento sagrado: EUNUNCAMAISIREITIRARNOTABAIXA. O trabalho de Office-boy (será que existe ainda essa profissão?), que ele fazia pra uma empresa imobiliária, e ia de bicicleta toda preta, cobrar os aluguéis pela cidade afora, pra poder ajudar a família. Um dia meu vô Ary me chama: “-Tem um colega teu aí fora, o rapazinho que cobra o aluguel.”

Talvez não tenha sido o dia de sua libertação, mas foi um desabafo pelo menos. Era meu colega rechonchudo, que vestia sempre a mesma camiseta preta (imagino que era a cor que ele elegeu como pra tentar esconder-se do mundo) para trabalhar, suado de tanto pedalar, usando como pretexto a próxima Gincana da escola que iria ocorrer na semana entrante. Convidei-o pra entrar, não quis:”-É que eu tenho que te falar... acho que vou desistir da presidência. Não aguento mais nossos colegas... dizendo que sou gay... Se eu fosse mesmo homossexual, o que eles teriam que ver com isso? Você não acha?”- olhos permissivos, medrosos, esperando um consolo.

Que conselho eu poderia dar (como se conselho fosse de graça*)? Até ali tudo o que eu fiz foi defendê-lo da turma, sem nunca encarar a questão diretamente com ele. Até ali, consegui manter nossas tribos em certa harmonia, dando um “para-te-quieto” aqui e ali, pros ânimos não se exaltarem. Até esse momento, menino era menino, e menina era menina, pois tive uma criação um tanto católica. Tirei as ideias de conflito por um instante da cabeça e falei, de coração sincero: “- O que importa é que você seja feliz como você é, e não comece a desistir das coisas por meia dúzia de babacas.”

Demorou uns dois anos mais, e Fausto conseguiu sair do armário aonde ele se escondia, todo escuro, onde seu mundo não tinha cor. Foi muito duro, claro. Teve que assumir uma vida velha, e fazer de conta que era nova. Teve que assumir que não contaria com a compreensão do pai, numa sociedade hipócrita como a nossa. Eu o reencontrei na calçada anos depois, saindo do banco. Consegui ver que estava feliz, quase radiante. O felicitei pela coragem.

Hoje vejo que o conceito de tribo que eu tinha, era mau, muito separatista. Que ele existe ainda, fora da adolescência, é inegável. Cdf’s, vagabundos, gays, heteros, infelizes, estudiosos, consumistas, arrogantes, divertidos, justos, injustos.

Ainda acho que os melhores são os que se assumem.

Luiza Versamore




*Ainda vou escrever sobre o tema “conselhos”, e vocês irão entender porque eu acredito que não é de graça.



-O nome verdadeiro de Fausto ficará resguardado.


  


Seres “Bem” Visíveis



Não sei, eu tenho um problema com a efusão das pessoas. Talvez seja uma fragmentação do TOC* que tenta vir à tona quando me deparo com certas situações. Talvez seja o meu jeito de ser. De qualquer forma, é ruim pensar assim de vez em quando. Trazendo o leitor ao assunto: admiro muito as pessoas sinceras e espontâneas, mas quando o exagero toma conta das atitudes delas, eu começo a ficar aflita. É sério. Eu acho lindo quando as pessoas são felizes de forma silenciosa, mas fico constrangida em meio ao escândalo. Talvez seja exatamente por isso que já tento olhar a situação com outros olhos -“mal necessário para evoluir, Luiza”, eu penso! Tive épocas em minha vida que aprontei fiascos. Sim, eu fui uma adolescente. E pra uma ex-adolescente admitir que “viveu”, realmente ela tem que ter “vivido”. É, parece que hoje a coisa tá saindo devagar, me perdoem, é meu castigo por ficar tanto tempo longe de vocês. Mas vocês se lembram do que dizia o Poetinha? Não pode ter vivido realmente, quem não amou. E na adolescência... hum! Um estado permanente de amor e raiva me perturbava muito. E não estou falando apenas de namorados, porque, como já mencionei em algum texto aqui no Blog, minha adolescência não orbitou exclusivamente em torno deste tema. Mas, como eu ia falando, algumas vezes passei por dilemas que tiveram toda aquela dramaticidade que mereciam no momento. Tudo, desde a primeira nota ruim, a primeira espinha (de muitas, argh!), ou a infeliz ideia de matar aula e encontrar a professora no corredor da escola dali a dois segundos (mas estou perdoada porque era Ensino Religioso e o único ensino que eles davam era dizer que tudo, até matar aula, era pecado...), e mais coisas que tiveram o seu grau de escândalo permitido para tal fase. Mas, hoje, não sei explicar porque me incomoda tanto essa simpatia exagerada de alguns seres-humanos ao redor, e mais precisamente, dentro do meu próprio círculo de vivência.

Só para exemplificar e não ficar parecendo que enlouqueci, vou descrever dois fatos que ocorreram nestes dias tão esperados das férias, que chegaram finalmente.

O primeiro aconteceu no prédio onde moramos eu e meu namorado, há um ano. Aconteceu que resolvemos fazer uma jantinha de despedida para alguns amigos, antes de viajarmos de volta ao Brasil, e também porque era o último dia da novela das oito e todos estavam ansiosos para ver o Léo morrer. Tá, quem não acompanha novela deve pensar no Léo, como o pior vilão dos últimos tempos, psicopata “grau mil”, que tinha a mãe mais “fora da casinha” que se pode ter. Continuando: estávamos no clima mais descontraído do mundo, televisão no último volume, que resultou em conversa mais alta ainda... Mancada total! Deu um tempo depois do final da novela e o interfone tocou, era o porteiro pedindo silêncio. Até aí tudo bem, a gente desligou a TV e começou a cochichar pra bem geral da vizinhança. Passam três dias, eu desço com minha vizinha do andar de cima, que é minha amiga também, quando me deparo com a síndica, vulgo Gargamel, (que é pra gente poder falar em voz não tão alta, dela, dentro do prédio com os outros vizinhos). Acontece que Gargamel, no fundo, é querido sim. Nós nos afeiçoamos a ele, porque é uma pessoa prestativa e carismática. Só que às vezes ele tem ataques de efusão que destoam do nosso ambiente na “Vila tranquila” em que nós, diminutos seres não-azuis, vivemos.

Nem bem acabo de cumprimentá-la, já vem a primeira flechada, especulando o porquê de nossa barulhenta reunião, fazendo ressalvas na frente do porteiro (que ria, impiedosamente, tal qual Cruel), do quanto o som estava alto, que as pessoas todas do prédio ligaram para ela reclamando e pedindo explicações, que ouviu não sei quem dizer isso e aquilo, que todo o andar (que tem metade dos apartamentos vazios), bateu à sua porta, indignado (e por que não, na nossa?), perguntou se era aniversário de alguém, quantos estavam lá dentro de casa, emendou o assunto do final da novela, depois voltou atrás dizendo que “maravilhoso que éramos pessoas tãããããão educadas e prontamente baixamos o volume quando solicitado”, e o pessoal passando pela gente e rindo da situação..., e ela pegando minha mão, emocionada, dizendo que os brasileiros não sabem falar baixo, mas isso não é nenhum defeito... nessa hora até queria ser um serzinho qualquer que coubesse dentro de um vaso de folhagem pra sair de fininho.

A outra situação ocorreu há dois dias, dentro do avião que vinha para Porto Alegre. Estou eu quase cochilando quando o comandante avisa que dentro de alguns segundos íamos enfrentar uma pequena área de turbulência. Desperto, e Rafa me olha, dizendo: tem um parafuso meio solto ali. Ele começa a me indicar, através do vidro da janelinha, o tal parafuso em alguma parte da asa, que eu realmente não vi. Então, ignorando qualquer possibilidade de estarmos compartindo este ambiente com alguém fóbico, Rafa simplesmente se vira e pergunta ao moço sentado no banco atrás do nosso, se ele estava enxergando também que o tal parafuso estava “meio solto”. Percebo o silêncio acabrunhado do viajante, e, aperto o braço de Rafael no momento em que quase todos ali nos olham, em meio a turbulência previamente anunciada. Entre dentes eu digo para ele parar de se manifestar. Meio insistente, ele percebe que realmente não era a hora de reparar nisso e ri. Bom, do Rafa tenho listas enormes de ataques efusivos, mas que servem mais de anedotas depois que passam, do que de críticas. Igual, ele sabe que sou avessa ao escândalo e muitas vezes me pego passando vergonha alheia. Como já disse, talvez seja só meu jeito de ser que não se enquadra muito no que as pessoas possam ver como normal.

Afinal de contas, normal ou não, até descobrirmos o que isso quer dizer, é melhor aceitar que nem sempre o que nos desagrada vem para o mal. Pelo menos, não na maioria das vezes...

Luiza Versamore

*TOC= Transtorno Obsessivo-Compulsivo


Com palavras não sei dizer...



 Cheguei em casa naquele final da manhã, estava irritada por alguma coisa que não lembro (tamanha importância que não tinha), estava com quinze anos, dramaticidade total, passei pela cozinha onde minha avo Maria começava a fazer o almoço, escutei um carinhoso “Oi, filha!”, e no meu egocentrismo desvairado de adolescente, olhei-a de cara fechada e entrei em meu quarto. Ora, como não estivera o começo do dia de acordo com minha vontade, porque haveria eu de ser carinhosa também?Aliás, aquela música tocando no rádio, enquanto a panela do feijão chiava, aromatizando o ambiente de um sabor de almoço em família, me desagradara profundamente. Por que escutar música se o meu mundo carecia de um silêncio profundo onde eu pudesse pôr meus pensamentos em ordem? Nesse balde imenso de egoísmo, assomei de novo à porta da cozinha e desdenhei das canções, e, irritada, perguntei a minha avó se ela nunca se cansava de passar as manhãs escutando aquele “péssimo” repertório! Ela me olhou, séria, e abaixou o volume do rádio. Então, como a pessoa que melhor me conhecia, começou a indagar o porquê de eu estar me comportando daquele jeito. O fato, é que eu acabei contando a ela os meus motivos, e depois de um breve choro magoado, e uma rápida conversa consoladora, quem me jogou um “balde”, foi ela! Um banho de otimismo, de males espantados! Envergonhada, elevei de novo o botão do volume, e aquela música instrumental de almoço teve outro significado.

Em meus dias de menina, não me recordo sequer um dia em que estive sem escutar com ela alguma embalada melodia do “Rei”. Duas memórias relevantes: a primeira eram das “siestas”... Eu tinha uns cinco anos, e o cochilo depois do almoço, e da limpeza da cozinha, é claro, pois vó Maria não dorme enquanto ainda tem “serviço”, (até hoje!), era ninado por Roberto Carlos! Que coisa mais antiga aquela música, a maioria não vai lembrar, mas tudo bem, dizia:

 
“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito

Que eu sonhei em toda a minha vida

Sonhei que todo mundo vivia preocupado

Tentando encontrar uma saída

Quando em minha porta alguém tocou

Sem que ela se abrisse ele entrou

E era algo tão divino, luz em forma de menino

Que uma canção me ensinou... La, La, La, La, La...”



Eu nunca dormia nadinha nessas “siestas”, ela me dava uns desenhos pra pintar e eu ficava quietinha, no chão ao lado da cama, entretida colorindo, enquanto ela tirava a soneca bem merecida depois de haver feito o melhor feijão do mundo. Na verdade, eu estava prestando super atenção na letra da música, fazendo uma viagem em minha cabeça, visualizando aquele menino entrando na casa do Roberto Carlos, que no meu pensamento, estaria tocando violão no sofá da sala, o menino simpático sorrindo pra ele, uma luz ofuscando a visão do cantor, maravilhado com aquela visita... esse pensamento ainda hoje me vem à memoria quando a escuto , em alguma sessão “sarcófago” na madrugada, é claro. Eu me sinto como se estivesse lá naquele quarto ainda, usando escondidinha um papel-carbono que ela usava pra fazer seus artesanatos.

Outra do Roberto que marcou (que era mais da vó Maria, que do Rei a essa altura da vida), foi “Como é grande o meu amor por você”.

Um dia aconteceu que a “tia” da segunda série avisou em aula que a turma toda iria cantar essa letra no Dia das Mães, como homenagem. Lá chegava a tia Beth no Salão de Atos do Colégio, com um toca-fitas gigante (que coisa velha) e começava a cantoria. E eu ainda hoje tenho uma foto deste dia! Na parte da estrofe a gente botava a mãozinha no coração e depois oferecia o “amor por você” para as mães. A foto até teria saído bonita não fosse um “porta-moeda” (de pulso!) cor amarelo-fosforescente-restart com fecho preto que estava super na moda, e uma calça fusô vermelha-restart de lã (credo!) que pra ficar mais “delicadinha” ainda, tinha um “big” elástico branco encaixando no pé, pra não subir durante alguma correria no recreio. Mas o que importa é que vó Maria estava lá, toda faceira, meus olhinhos encontraram os dela quando saí daquele palco de madeira ao seu encontro, ela muito emocionada pelo evento.

Fiquei lembrando disso tudo, todos os dias eu saindo pra ir à escola, voltando pra casa, dando um beijo na hora de dormir, ela deitadinha já com o rádio bem baixinho tocando no ouvido... Temos como repertório de nossa convivência um milhão de músicas, das quais com certeza milhares são de Roberto, outras milhares mais antigas, de vários artistas (daí que eu tenho uma fixação por discos antigos), e todas nos fazem recordar uma à outra. Aliás, enquanto estou aqui escrevendo, ela esta lá, espantando algum pensamento das saudades que isso tudo nos deixou, certamente ouvindo alguma coisa que gravei no PC, e que ela ouve, ainda com alguma hesitação, pois não confia em CDs que não são originais...

Coisas de vó Maria: o feijão mais gostoso, a preocupação mais sincera, a mania de musicar a casa, e oferecer-me as tintas com as quais fui aquarelando pelo mundo, um pouco fosforescentes de vez em quando, mas iluminadas como sempre.



Luiza Versamore










UM MUNDO DE PORQUÊS

Ontem terminei de ler "Os 13 porquês" de Jay Asher. No começo achei que seria mais um romance descartável do que uma história que fizesse algum sentido real. Bem, felizmente me enganei. O romance é narrado, ou co-narrado, por duas personagens principais, o jovem Clay e sua ex- companheira de colégio, Hannah Baker, cuja presença predominante aparece depois de suicidar-se, em uma gravação onde ela explica as razões que a levaram a cometer tal ato.
Hoje, aos 28 anos, sabendo um pouquinho mais da vida do que eu sabia quando tinha 13, várias vezes parei em meio a narrativa, achando que cada explicação que dava Hannah para seu ato desesperado, estava sendo realmente muito supérflua, ou seja, que ao fim, analisando friamente, não sobravam de nenhum daqueles porquês, uma razão derradeira para justificar seu suicídio. Eu disse: analisando friamente. De repente, voltei no tempo, em minha memória, e lembrei do caos total que vivi dentro de mim quando era mais jovem. Nunca tentei suicídio e não tive tal inclinação a fazê-lo, mesmo tendo passado um período difícil de depressão ( e único, graças a Deus) durante um ano da minha adolescência. Mas, naquele momento, a mim parecia que eu tinha todas as causas do mundo para isso. Realmente, TODAS as razões que eu tinha, hoje me parecem completamente idiotas, insustentáveis. Eu pensava que não deveria mais viver, que a vida não fazia sentido. No começo vivia chorando, tudo era motivo para tristeza. Sendo criada por meus avós. Uma vó com transtorno obsessivo-compulsivo, difícil de conviver com todos. Eu, uma adolescente perdida, romântica e um pouco dramática. A beira de descobrir tudo o que viria pela primeira vez. Meu mundo era um quarto cor-de-rosa, uma pasta de papel de carta e um cd da Laura Pausini. E uma melhor amiga, que me salvava da solidão interna que eu sentia, e que, tempos depois, por erros meus que agora não vêm ao caso, eu afastei de meu lado.
De um dia para o outro eu já não era mais uma menina. E, no outro dia eu voltava a ser. Com minha avó o diálogo era difícil, ela achava que tudo era bobagem. Minha mãe trazia pra eu ler revistas "Querida", "Carícia", então tudo o que eu sabia sobre adolescer era o que estava escrito ali, aparentemente meu pequeno manual de salvação.
A maioria dos temas e matérias dessas revistas, eram e acho que hoje ainda continuam sendo, eles, os meninos. Porque estavam sempre falando sobre virgindade, primeiros beijos, menina que fugia de casa com o namorado, mães novas solteiras, testes de qual o seu tipo de namorado perfeito, letras de músicas românticas, presentes para namorados, poesias para namorados, dúvidas sobre relacionamentos com ficantes e namorados, como entender a cabeça dos namorados. Aquela balela toda parecia que era pra convencer a gente de que o mundo é um grande luau, cheio de príncipes e princesas, influenciando a gente a colocar no fundinho do subconsciente que aquele era o objetivo da vida de uma adolescente: ter um namorado. Prato cheio pra uma mente romântica. Mas minhas dúvidas, na maioria das vezes, eram sobre outros temas da vida, pra mim, muito mais importantes. É claro, de vez em quando, vinham matérias sobre leituras, discussões sobre separação dos pais, mudanças do corpo, e crônicas de adolescentes, que escreviam aquilo que pensavam realmente. Mas a maioria tentava, não sei se por querer, implantar na nossa cabeça um mundinho que não era assim. Ou seja, não era SÓ isso. Eu queria entender naquela época o que minha irmã adolescente entende hoje, perfeitamente. Que era uma fase. Todos diziam que era uma fase, mas ninguém explicava porque era uma fase. Todo mundo dizia que eu era "aborrecente", mas não sentavam e diziam: peraí, seu corpo tá em um momento de transição! Seus hormônios estão tentando se equilibrar, por isso uma série de coisas estranhas vai acontecer, principalmente na sua cabeça. Vai ser assim e assado. No caso de que se fossem meus pais a conversarem, eles falariam de como foi com eles. O que eles sabiam ou não. O que eles descobriram. Na revista, ler não era a mesma coisa. Eu entendia tudo, mas interpretava de outro jeito. E quando você é adolescente, é assim mesmo, você interpreta de uma maneira totalmente diferente da sua amiga, que por sua vez interpreta de maneira diferente da outra.
Assim, recordando todos esses momentos angustiantes de ser adolescente, eu me peguei passeando novamente por aquele mundo, talvez em alguns aspectos, o mundo de Hannah Baker também, onde ela não tinha muitas pessoas que a escutassem. Infelizmente, assim como aconteceu com a personagem, também ocorrem todos os dias os casos de suicídio de jovens. Se formos analisar sobre um aspecto biológico, eu, como estudante de Medicina, hoje sei que a maioria dos suicídios decorrem de uma situação de desequilíbrio orgânico de neurotransmissores cerebrais, dando como resultado uma depressão endógena, um tipo de depressão severa, cujas únicas medidas de tratamento efetivo, são medicamentosas. No livro,  Asher consegue aliar a trama vivida pela suicida a um apelo de grande utilidade a pais e adolescentes, mencionando por diversas vezes a sintomatologia que cerca essa doença, cada vez mais comum na atualidade. Tenta abrir os olhos das pessoas que convivem com adolescentes, tanto professores, como pais, como os próprios amigos; para aprenderem a enxergar além do que podem. Coloca a personagem frente a momentos extremos, dos quais a maioria de nós passou nessa época, mas sempre focando nos sentimentos dela, e apresentando-os como exclusivos. É claro, nem todos os adolescentes "sofrem" por adolescer. Mas, se a gente puder perceber esses sinais naqueles que o fazem, poderemos mudar muita coisa.

                                                 Luiza Versamore


Dois vídeos interessantes sobre o assunto:
1) http://www.youtube.com/watch?v=xHz15TaotXU&feature=endscreen

2) http://www.youtube.com/watch?v=VkqJ0Ahx8RM&feature=relmfu
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...