Mostrando postagens com marcador crescer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crescer. Mostrar todas as postagens

Elis

Eu queria dar o nome. Queria alisar a barriga de minha mãe para sentir que ela se movia dentro.

-Qual o nome? Perguntou mamãe no dia de sol.

-Margarida.

-Mas por quê? (só os filhos respondem os porquês dos sete anos convincentemente)

-É o nome da minha amiga de aula, que é albina. Eu acho ela linda.

A avó riu, dizendo que parecia nome de bisavó. Só vó Maria poderia fazer dessa uma dedução lúcida e engraçada ao mesmo tempo.

Quando Elis chegou no colo de mamãe em casa, já era Elis.  Seu cabelo castanho, tufo arrepiado. As mãozinhas fofas, com furinhos. Era minha margarida. Minha flor-bebê. Eu virei uma abelha na hora em que a vi. Por dias fiquei sobrevoando e zumbindo palavras suaves em seu ouvido. Aprendi a falar baixinho para não perturbá-la. Pedi para não ir à aula, para poder ficar rondando. Com uma semana já sabia todos seus chorinhos. Mamãe não pôde estar a sós com a bebê. Eu fechava as janelas para a hora do banho, escolhia as roupinhas, segurava a mão enquanto ela mamava. Assim, o umbigo caiu. E ali me conectei instantaneamente.

Nosso avô Ary fala que ela é a atriz preferida dele. Por motivos de saúde, ele nunca pôde assistir sua atriz no palco. Mal sabe ele que só viria a reafirmar seu pensamento. No Teatro algumas vezes (menos vezes das que quis), pude comprovar o seu talento. Senti-me diversas vezes em seu jardim, contemplando novamente minha flor.

A admiração é uma coisa que leva tempo. E minha admiração por Elis foi construída em cada folhinha de bem-me-quer. É tudo que eu vislumbraria ser. Realista, firme, consistente (com um milhão de pozinhos de pólen de braveza). Tudo que não sou: o coração enorme, altruísta. A vontade de contestar, exigindo que se exerça o bem. Quando minha flor saiu para o mundo, em busca dos seus sonhos, eu vibrei em emoção. Foi isso, foi espalhar seu dom.

E quando um dom se espalha, é para tocar vidas. É como um sol no dia de flor. Um narizinho de palhaço acariciando uma bochecha. Uma abelhinha que ronda o sorriso de quem não desiste.

Minha doce Elis, não se inquiete. Que nossa vida é palco, e improvisa quem batalha. E você é presente que chega na manhã, de leve, com covinhas no semblante.

Mamãe tinha afinal, razão.
É o seu nome que deveria ser dado à flor.

Luiza Versamore







Gabi

O bebê mais risonho do mundo. Uma menina doce com cara de sorriso. Ela sorri toda, desde pequenina. Quando sorri, o sol se derrama dentro da gente.

Eram sete da manhã quando Gabi abriu os pequenos olhinhos verdes, ainda no berço. Piscou e imediatamente iluminou o quarto. Acordei com sua luz abrilhantando o ambiente. A espiei sorrateiramente. Um riso desdentado apareceu. Eu ri de volta. Minha irmã mais nova era o bebezão que eu queria ter pra brincar quando pequena. Era a boneca que emitia sons, barulhinhos engraçados. Era a boneca com cheirinho de xampu infantil. Minha boneca. Eu era magrela, bracinhos de grilo. Não podia pegá-la no colo sem supervisão de adulto. Mas podia colocar meu braço fino por entre as arestas do berço para tocar no seu bracinho gordo. E ela ria, querendo pegar.

Posso dizer que um obstáculo tentou se interpor em nossa estrada da vida: morar em estados distantes. Ver a ela e Camila nas férias era tão almejado quanto ver nosso pai. A distância é uma coisa injusta. É um momento de saudade do que poderia ter sido.

Só que, quase inacreditavelmente, também existe um lado justo- a distância confere valor de trailer de cinema em nossa vida, no momento em que a saudade se desfaz e nós nos reencontramos com quem amamos. Não havia tempo pra eu brigar, nem discutir, nem me emburrar com as irmãs. Eu as queria proteger, fazer penteados, admirar o sotaque. Era oportunidade de conhecê-las de novo, cada ano em uma nova fase da vida.

E, de repente, é numa batida de coração que tudo acontece. Por conta de um defeito congênito, aos dezoito anos Gabi passou por uma cirurgia cardíaca. Que suportou sem se vitimar. Que superou mostrando a todos que pior defeito tem quem não tem um Coração como o dela.

 Minha irmã mais nova faz aniversário hoje, e eu me pego a refletir (didaticamente, como a futura professora):
1-       Que o tempo só volta na nossa memória, por isso devemos fazer com que ele valha a pena;

2-   Que minha tentativa de ficar loira aos doze anos, pra ter o cabelo de Gabi, fracassou pavorosamente;

3-    Que não é porque Gabi na minha cabeça é ainda um bebê, que nunca vai se apaixonar, e namorar, e viver;

4- Que minhas três irmãs me ensinam todos os dias o significado de um amor incondicional.

Se eu pudesse fazer um trailer, Gabi, nosso filme seria o seguinte: a distância física entre nós seria seu bercinho de dormir. Com minha mão eu tentaria lhe alcançar. Com seu sorriso, você me alcançaria.

Luiza Versamore






Caren


Obrigada por ter me perdoado.

Conheci muita gente em minha vida. Mas as melhores pessoas talvez tenham sido as que eu menos entendi. Deve ser porque, quando gostei de alguém de verdade, em quem confiei e me confidenciei, em determinado momento, quis também que a pessoa agisse como eu. Quantos de nós somos exatamente assim, e honestamente, sem querer?

Piaget* já fazia menção em seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo e psicológico da criança e também do adolescente, a essa tendência marcada do egocentrismo e seu papel fundamental na vida humana. Ele descreveu o Egocentrismo Adolescente como necessário ao processo adaptativo do indivíduo na sociedade. Um processo que, digamos, em algumas pessoas dura para além da idade adulta (mas não é esse o caso).

O que quero dizer é que, a mais ou menos quatorze anos atrás, eu errei feio com uma amiga, que era para comigo puro carinho e cumplicidade. E, simplesmente, eu a tirei de minha vida. Arranquei dela uma oportunidade de falar, a julguei, dei valor a mesquinharias, coisas que não importavam, por eu ser egoísta. Sem lembrar, que, em comum, também tínhamos o gosto da leitura, e, muitas vezes, ela me explicava sobre o sentido do altruísmo. Foi aí que cheguei em Piaget. Foi aí que não me enxerguei como eu realmente era. Que loucura é essa na psique humana, onde a gente pensa que vê, mas está cego? E, então, eu me deprimi muito, mas não pedi desculpas. Não vou elucidar ao leitor o porquê do que me fez fechar a cara para Caren, pois essa é uma carta de reconciliação. Uma carta de agradecimento. Uma carta sem mágoa.

Acontece que há mais ou menos um ano, encontrei-a em uma rede social. Queria pedir desculpas a ela, mas não tinha ideia se isso funcionaria. Afinal, vivenciamos e vemos todos os dias, essa incapacidade humana, de não perdoar de coração as falhas do seu semelhante, o que custamos a pôr em prática na vida cotidiana. Agora a moda é amarrar em um poste nossa própria desgraça, e açoitá-la como nos tempos de escravidão. Assim não teremos de lidar com o fato de que o errado da nossa sociedade é sua própria hipocrisia.

Numa época em que eu sabia que podia voar e ser quem eu quisesse, conheci uma amiga chamada Caren. Tínhamos muita coisa em comum. E deixei todo o comum de lado, para me apegar a pequenas coisas.

Mas ela não foi pequena como eu. Ela me concedeu suas desculpas. Concedeu-me um sorriso ao ler que (nas palavras dela)- “as pessoas se afastam por coisas bobas”...

Mas a melhor coisa que eu li foi: “O importante é que temos maturidade para não transformar este afastamento em mágoa e, sim, em uma surpresa agradável.”

Obrigada Caren. A grata surpresa de minha vida é saber que a pessoa que você é, eu quero me tornar.

Luiza Versamore


**O nome real de Caren foi preservado.




Livro Fechado

 Não é culpa de ninguém que eu seja tão fechada. Ou talvez seja culpa minha. Penso que estarei perturbando ao relatar que sofri, alguma vez. A avó tenta saber, pergunta com cuidado, e dou risada no meu íntimo, porque sei que falarei uma meia verdade contida e ficará tudo bem. Ela talvez ache que sabe algo do que passei, que consegui transpor os traumas de infância, que sou bem resolvida quanto à adolescência e aos sofrimentos passados. Eu deixo. Não me perturbo por isso mais. É um sofrimento que iria perturbar pessoas que estão de bem com a vida, e daí surgiria a relatividade da culpa, e aquilo que acredito que seja algo que possa ferir. Tem coisa que tem que ficar presa, pois se sair estraga tudo.

Estive a ponto de contar que um dia também sofri como um cão sem dono- boa estrofe de música ruim... as músicas ruins estão pra nossa “dor de corno”, como o chocolate quente está para o inverno. Só que tem um inverno que dura pra sempre dentro de nós, então é melhor nem tocar na existência dele, deixá-lo congelado e amortecido.

Me dei conta de que nunca contei uma dor de amor a ninguém, pelo menos não tal qual ela foi. Os detalhes que machucaram, os fatos que feriram. Sempre sufoquei o pior. Sorri quando queria era me atirar da ponte. Mas não invejo quem consegue contar sua dor, não mesmo. Acho que tem um tom de lástima que a gente não precisa expor a todo tempo: faz você parecer que foi o único que sofreu no mundo, na vida, em todos os tempos, a maior dor do universo. Só que todo mundo já sofreu assim, sinto em dizer.

De todas as dores, a que mais me cala é a da infância. Eu tive o carinho que bastava pra uma menina pensadora, que vagava sozinha por pensamentos confusos, por adultos confusos. Um carinho de avós, grande, mas de substituição. Fui preterida muito cedo, e me senti excluída e esquecida muitas vezes. Não, vocês não irão entender, porque está tudo trancado. Não vou explicar.

O adulto que somos jamais esquecerá a criança que fomos.

 Amar se aprende, é isso? Será que é mesmo preciso que nos ensinem a amar? A não desdenhar dos sentimentos e sonhos de quem amamos? Talvez.

Somos seres imperfeitos demais para julgar a dor de alguém que a expõe. Mas respeite quem tem a sua dor recolhida, também. Quem não escandaliza os sentimentos. Existem bons motivos para que fiquem lá, num canto aonde somente eu possa ter acesso.

Um pouco de justiça no seu argumento, e talvez consiga entender que desconhece minhas mais profundas dores. Nem por isso farei disso o lema de minha vida, pois quem sou hoje, não reflete a amargura que vivi. Decidi que teria que ser doce com quem amo, como espero de quem amo, ou esperei. Teria pavor de viver nesse mundo crendo que sou uma vítima.

Mas não pense que eu esqueci.

Luiza Versamore


 “Frias vidraças dentro de mim,
Passa o inverno, mas não passa, não
Essa geada em meu coração.”
                                        Nara Leão





Bambolê

Sofri uma grande decepção ao saber que o que fazia aquele barulho de chocalho dentro do bambolê, era na verdade, sementes de milho.

Manhã de inverno. Estava muito frio, eu vestia alguma roupa extravagante de lã vermelha e uma touca de tricô cru com pompons. Vó Maria me levava pela mão. Meu Ortopé azul-marinho tinha um bolsinho pra guardar dinheiro. Antes de sair de casa ela punha um trocadinho dentro do bolsinho, com a recomendação de que era pra trazer algo que eu gostasse da rua. Me sentia rica nessa hora, e cada passo, mais parecia um desfilar. Afinal, eu levava naquele pé um tesouro. Um tesouro que ia de ônibus até o centro da cidade, feliz.

Premeditada, vovó já sabia que meu desejo se tratava de um bambolê. Era o brinquedo da moda na época, e todos eram coloridos. Eu não me saía bem no rebolado quando ensaiava com o das amigas, algumas já faziam manobras com o pé. Eu deveria praticar, e pra isso precisava ter o meu. Parece que estou falando de um carro, é engraçado como as coisas mudam e as brincadeiras ficam sérias.

Mas voltando ao assunto. Entrei na lojinha da esquina ofegante. O cachecol me apertava, o nariz era gelado, a expectativa fervia. Haviam dois bambolês pendurados na parede, um era verde, minha cor favorita, e o outro preto, com uma fita dourada serpenteando toda a volta. Como era criança, quis o verde, de cara. Se tivesse conhecido Chanel não me atreveria. Mas as crianças daquela época queriam o brega, não queriam ainda usar uma roupa de adulto em miniatura, como é hoje.

Uma senhora que nos atendia estendeu-o em minhas mãos, e, ao largar, pequenos barulhinhos se soltaram no chão frio. O bambolê se abriu, e, de dentro, caíram alguns grãozinhos amarelos. Os peguei na mão e os encarei com horror, olhando incontáveis vezes ora pra vó Maria, ora pra atendente, ora pros grãos. Não podia ser! Aquele barulhinho gostoso sempre foi em minha cabeça, bolinhas coloridas, talvez comestíveis, como as coisas eram no filme da Fantástica Fábrica de Chocolate! E, aos quatro anos de idade, eu saí da loja com o bambolê preto e dourado, pensando na remota chance de que lá dentro dele tudo pudesse ser como eu imaginava.

Os dias que se sucederam ao fato foram de extremo cuidado. O rebolado era contido, deus-me-livre abrir o bambolê ao meio e eu fazer mais uma descoberta triste. No pé nem pensar, não me arriscava a emprestar, a fita dourada queria descolar. “Se você não brincar, vai ficar de enfeite na parede!”- a vó repetia.

“E se abrir e de lá de dentro sair milho?”- perguntei temendo a resposta. O que vovó disse seria a grande diferença da infância feliz que tive e da segurança que eu viria a sentir em certos momentos da vida, onde ficou claro que muitas vezes, talvez minha imaginação não pudesse me salvar de tudo.

“Faremos pipoca!”

Ainda hoje fecho os olhos perante essa lembrança para poder escutar o barulhinho, e então de novo sou criança. Nem sempre o que parece inseguro, é ruim. A beleza está em poder ter a oportunidade de saber a verdade. Por mais que nos doa.


Luiza Versamore





Pour Elise

O caleidoscópio e a caixinha de música vermelha: os brinquedos favoritos dos sete anos. Fui visitar os avós paternos na cidade vizinha à que eu morava. O caleidoscópio pertencia ao amigo mais querido do mundo, que coincidentemente também era meu tio, Luciano. Por uma dessas gratas surpresas da vida, ele tinha quase a minha idade, sendo eu dois anos mais nova. A caixinha de música vermelha era da minha vó Cris, e me foi “emprestada” por ela, por alguns dias, pra que eu pudesse escutar a melodia mais de mil vezes. Era uma daquelas caixinhas antigas de descanso para o telefone, que não lembro bem, mas provavelmente tocava Pour Elise*. À noite, para incomodar tio Lucho*, eu apertava o botãozinho de cima da caixinha e infernizava ele para que não dormisse. Era necessária a intervenção dos avós pra que eu parasse o desagradável tormento. Na negociação, consegui autorização para dormir agarrada com a caixinha.

Quando vó Cris entrou no quarto eu estava apontando o caleidoscópio para a janela, maravilhada pelas imagens que apareciam. Eram figuras verdes, azuis, e vermelhas, que ora pareciam estrelas, ora viravam flores. –“Nenhuma se repete, nunca!”- dizia ela. Não se repetiam mesmo. Era ficar horas tentando. Mudava de janela, procurava outros focos de luz. As formas variavam, nenhuma igual à outra. Inventei de tentar “desconstruir” o instrumento, pra saber que magia era aquela dentro dele. Claro que foi intervenção divina, vó Cris escolheu o momento certo pra barrar meu excesso de curiosidade. Quando desconfiou do meu silêncio, eu estava prestes a desmontar o brinquedo, salvo pelo poder da voz mansinha da avó.

A gente cresce e todas as coisas que tinham um significado sólido na nossa infância, passam a ter um valor quase metafórico quando nos tornamos adultos.

Aos sete anos era o caleidoscópio que prendia minha atenção com suas imagens todas diferentes e curiosas, como cabiam todas lá dentro, eu não sabia, e isso era toda a maravilha dele. Hoje, as diferentes situações da vida, já não nos deixam espaço para sermos meros expectadores. Não sobra tempo pra gente se perguntar o porquê de muitas delas. Muitas vezes não temos nem a iniciativa de querer analisar o que nos condiciona a pensar como pensamos. As milhares de situações que nos são apresentadas, e, até mesmo as corriqueiras, são vividas sem muito brilho. Por que deixar de nos cobrarmos atitudes melhores perante a vida? Sim, dá mais trabalho, mas se a gente pudesse resgatar por um instante destes muitos, aquela vontade de criança de entender como a vida funciona, veríamos com mais clareza o que realmente importa.

A caixinha de música emprestada por vó Cris foi comigo pra minha cidade, mas depois de mais negociações, ela conseguiu levar de volta ao me deixar o seu secador de cabelo em troca. Acho que deve ter sido aí que começou a minha mania de dormir com algum objeto ao lado, tipo cachorro que dorme com o ossinho. No meu inconsciente deve estar uma representação da pessoa, ou a percepção de proteção que isso me dá. Ou eu sou doida mesmo.

De qualquer forma, talvez o mundo, cheio de nuances complexas, seja tão simples quanto uma figura caleidoscópica, e a gente o complica demais.

A gente deixou de ter a sabedoria de vó Cris. Deixou de negociar uma paz interior, trocar um sentimento que nos desagrada por uma pequena possibilidade de saudade. Uma legítima e boa saudade.

Luiza Versamore


*Lucho é apelido carinhoso do tio Luciano
*Acho difícil você nunca ter escutado essa famosa de Beethoven, mas se quiser lembrar, está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w




Toalha Molhada


Pare de culpar o casamento pelo insucesso do seu relacionamento. Casamento não é o problema. O problema do término não é a terceira pessoa que existiu entre vocês, tampouco, se houve uma. O problema do casamento é o que você pensa que ele significa, porque você acaba transformando-o nisso mesmo. Faça um retrocesso mental e busque o seu parecer sobre o próprio casamento durante o tempo que ele durou. Tenho certeza que na época não o taxava de ruim, ou pelo menos, não o condenava como agora.

Um relacionamento que acabou de forma desafortunada para somente uma das partes é doloroso sempre. Prova disso é quem sofre por uma relação que ainda nem começou direito, quando se está na fase da expectativa. Daí você pode dizer: mas se estivesse casado seria pior. Acredito que isso é uma inverdade. Porque pode ser que estejam namorando há séculos, sem estar sob o mesmo teto, e, de repente, por uma razão qualquer, acabe. Vai sofrer menos a pessoa que namorou 10 anos, 2 anos, 3 anos, da que namorou 20 ou 30? Não! Porque quantificar o significado da relação é uma coisa impossível falando-se de sentimento. Se ainda olha pra trás e vê que perdeu tempo, então reconheça também a sua incapacidade de crescer com o outro, e a sua parcela de colaboração nessa perda.

Me sinto um pouco enraivecida quando alguém diz que não quer casar porque não iria suportar toalha molhada de novo em cima da cama. Puxa! Me desculpe, mas que M..... de casamento foi essa então? Que no fim só significou toalha molhada... Fico estarrecida com isso, me parece que realmente o relacionamento se reduz a aguentar o outro. Com certeza faz parte do dia-a-dia, em qualquer relação interpessoal, um pouco de paciência. Mas quando você começa a criar desculpas para "abichar" o casamento, acho, que na verdade, o que você sente é medo de ser tão completo e se sentir tão feliz e dependente de um amor (e gostar disso), que não quer nem pensar em viver isso novamente, e, por infinitos motivos, vir a perder outra vez, de forma cruel e inesperada, o conto de fadas que pensava viver. Medo de perder o chão de novo.

Daí sim, essa desculpa eu aceito. Que você tenha medo, torna você humano. Que você tente denegrir o casamento com desculpinha esfarrapada, depois de ter passado longos anos adorando a instituição, me parece, no mínimo, recalque.

Não quero dizer com isso, que concordo que casamento seja maravilhoso o tempo inteiro, ou qualquer relação (pobre de quem idealiza isso). Maravilhoso é você não precisar de nenhuma desculpa pra viver intensamente a vida, e estar ao lado de alguém que te permita viver de verdade, e não “morrer” diariamente em uma relação castradora, que te condene à infelicidade. Se ainda não sabe do que estou falando, tenho uma novidade: você tem muito a viver neste aspecto!

Pergunte pra quem é feliz no seu relacionamento (seja casamento, namoro, ficagem ou afins), e verá que existe uma concordância nas leis metafísicas do amor que "a toalha molhada uma hora seca, mas um coração machucado talvez nunca pare de desaguar".

Se seu casamento virou toalha molhada, é uma pena. Mas não condene seu próximo relacionamento a esse peso. Ainda não existe uma fórmula para se terminar um relacionamento sem sofrer. Concordo que o ideal seria aquilo que a gente amaria que acontecesse sempre, "um belo dia os dois resolveram terminar tudo sem se magoar", tenho que rir desse blá-blá-blá, pois até onde eu sei, essa matemática não existe e nem vai existir aonde estiverem duas personalidades diferentes.

E nem isso tudo junto é desculpa pra não se tentar de novo.

Luiza Versamore



Santa Maria


Um dia antes da tragédia ocorrida em Santa Maria, minha cidade natal, eu estava lá. Fui ver minha irmã Elis em sua apresentação teatral, última obra sua para encerramento de seu curso de Artes Cênicas, na UFSM*.  Foi um espetáculo lindo, digno de uma Beatriz de Chico Buarque**.

Fazia anos que não revia minha cidade. Sempre morei com minha família em uma cidade de fronteira, longe dali, foi somente quando saí do Ensino Médio, no ano 2000, que pude retornar a Santa Maria para estudar. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa de meu viver.

Os jovens que vão a Santa Maria pra estudar, como brinde, ganham um “cursinho básico” para a vida. Você é jovem, tem pouca grana (como eu e minha prima Nessa, na época que moramos juntas), pouca experiência, costumes e manias ‘imutáveis’ de adolescente, questionamentos e dilemas que beiram à adultez, vontade de correr atrás dos ideais reclusos na cidade pequena de onde veio, cara e coragem pra lutar.

E então, desde o primeiro dia morando sozinho, você começa a aprender. Primeiro, o choque doméstico. Você fica espantado como pode a sua roupa toda de repente sumir! Não existe uma peça limpa! Você abre automaticamente mil vezes o guarda-roupa esperando que elas se materializem limpinhas, cheirando a amaciante Fofo, e então, quando a última toalha limpa acaba: BUM! O que fazer? Parece muito simples: lavar à mão? Não é. Juntar dinheiro pra comprar uma máquina de lavar? Entre comer e pagar o Cursinho... Não é.

Estudante bom que se preze, emagrece uns cinco quilinhos no primeiro ano fora de casa! Primeiro porque acha que Nissin Miojo vai dar conta até o final da faculdade. Segundo porque acha que nunca vai ter uma dor de barriga brutal em função do velho Xis da esquina requentado (e vai parar no Pronto Socorro por conta disso). Terceiro porque às vezes ele tem que morar em um pensionato esquisito, onde a dona não deixa ele usar o fogão (sim, isso existe). E, adicionando um quarto elemento, os lugares que existem para os Universitários comerem a um preço razoável, não tem uma comida tããão razoável assim.

E também tem aquele maldito, chato e insuportável sono de adolescente. Em virtude de que agora você deve cuidar de si próprio sem direito a uma folguinha (e, se trabalha, ou estuda pra passar num vestibular de Medicina, mais), é aqui que a coisa desanda. Porque agora você divide tarefas com jovens como você, dentro da República onde mora, e hoje é seu dia de limpar o banheiro. Porque hoje é seu dia de reunir a grana da galera e enfrentar a fila do banco pra pagar as contas, antes que cortem a luz. Porque hoje, mesmo com enxaqueca, é seu dia de conversar com o cara da imobiliária pra ele fazer um conserto no apê. Não tem o dia da mamãe ou da vovó reconfortando o cochilo despreocupado no sofá da sala. E você “cai duro” na cama, dormindo em meio ao amuado pensamento, questionando se foi a melhor hora de sair de casa.

Então um dia você volta à sua cidade, como eu voltei. E, andando de ônibus até a Cidade Universitária, você se lembra de tudo, e ao invés de chorar, sorri. E agradece por ter vivido aquilo. Passa pela Avenida Presidente Vargas relembrando o velho tênis que percorria a cidade atrás de uma aula de Matemática melhor. Sonhava em que sobrasse uma graninha do apertado orçamento estudantil pra poder comprar uma calça jeans legal, quando via a loja bonita, na esquina do Calçadão. Ou talvez fosse melhor investir no rodízio de pizzas, lá na Medianeira. Ou ir numa festinha ou barzinho, comemorar todos os novos aprendizados da vida, incluindo aquela nota boa na última redação.

Não sei o que é mais injusto nesta hora. Ser pai e mãe e compartir uma dor fulminante dessas, pensando em todos esses familiares e sua perda inestimável, ou ser filha e filho, e pensar que nós vivemos como esses filhos e filhas. Nós estivemos lá, em Santa Maria, durante anos, aprendendo, realizando, tentando o nosso melhor. Nós acordamos no meio da noite, barriga roncando e sonhos incompletos, tentando nosso melhor. Nós não desistimos, apesar de tudo o que vivemos, porque nossos sonhos eram grandes demais para permitir a derrota. Nós fomos como eles, e não permitimos a estagnação e a desculpa furada de não poder fazer nada porque só podíamos fazer um pouco.*** Nós aprendemos.

Saí de Santa Maria no sábado à tarde, algumas horas antes do incêndio na boate. Estive a viagem inteira pensando em tudo que vivi, ora me emocionei, ora quis gargalhar. No dia seguinte, o fato horrível me acorda, e eu agradeço por minha irmã e meus primos estarem bem. E foi só o que eu consegui fazer.


Foi em Santa Maria que aprendi a lição mais valiosa de minha vida, e tão antagônica a este momento. Nunca esquecerei. Eu aprendi a viver.

Luiza Versamore

                                           Arte de Alpino

*UFSM: Universidade Federal de Santa Maria
**Beatriz de Chico Buarque: confira aqui
***citação de Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.


Até logo!


Uma nova oportunidade. Uma possibilidade de fazer diferente. O fato é que no Ano Novo, ninguém quer continuar igual, todos querem melhorar de alguma forma. Seria perfeito se esse desejo permanecesse flamejante em nosso pensamento ainda depois de todas essas festas, promessas, e planos...

Faz parte da ventura humana almejar alguma coisa. Desde a personalidade mais infame, até a mais engenhosa, não existe uma alma neste mundo que não queira realmente apegar-se a um objetivo. Pode ser que seja apenas o de sobreviver. Ainda assim, nesses últimos dias de 2011, a sementinha dos desejos vai tomando forma e deixando crescer dentro da gente uma vontade bem grande de ótimas realizações.

Como último post do ano, quero relatar um pouquinho dos fatos marcantes da minha vida neste ano que passou...

Bem, meu ano começou todo brando e calmo, eu e meu “namorido” morando em um país bem diferente, tentando viver as dores e as delícias de dividir o mesmo espaço, e, curiosamente, apesar dos pesares, conseguimos nos sair muito bem. Aliás, se não tivéssemos nos dado essa força, teria sido bem mais difícil passar pelo que viria adiante. É, porque, bem sabe quem já “casou”, o quanto um relacionamento verdadeiro custa à inveja alheia. Sempre você encontrará alguém sem nenhum conhecimento de causa pra vir dar “pitaco” na sua vida, como se dela soubesse mais do que você. Mas encarei isso como uma forma de mediocridade e fui adiante.

Em março postei pela primeira vez aqui no blog, um texto antiguinho que eu tinha escrito no meio de uma aula chatinha. Não postei tanto como eu supunha que seria, mas me empolguei bastante pra escrever algumas memórias. Conheci blogs interessantes e blogueiros amigos, cujo incentivo foi brilhante e fortalecedor!

Quase no meio do ano, tivemos alguns percalços, um vilão foi desmascarado (leia aqui), amizades se tornaram mais fortes, novas amizades começaram.  

Tivemos um encontro MARAVILHOSO, quando nossa família veio prestigiar nossa formatura, e foi um dos períodos de minha vida mais feliz, exatamente por estarem conosco. Foi nesse momento que pude perceber que realmente, somente as pessoas que nos amam vão estar com a gente apesar de tudo o que somos. Foi quando vi que todas as horas de dúvida, ou toda a sensação de incapacidade, e toda a espera não foi em vão. E pude ver que, mesmo com tanta coisa por vir e realizar, valeu cada segundo viver esse momento.

Depois voltamos para o Brasil, e, ao sentar na cadeira de balanço de vovó, eu enchi minha vida novamente de combustível. Foi no soprar do ventinho de outubro na sala vendo vô Ary cochilar, que eu tive certeza de algo tão angustiante, mas eu ainda não sabia (e agora vocês vão rir): eu cresci!

Gente, eu cresci! Foi tão doloroso. Mas teve seu momento de alegria também. Me dei conta de como o tempo passa, a vida continua, algumas coisas mudam bem devagar. Também percebi que é fácil não nos darmos conta disso, se na nossa cabeça não houver espaço pra mudança, estaremos fadados a estagnar! E eu me dei conta que ninguém pode me fazer ser melhor, mas eu posso. É, foi assim mesmo, eu ainda estou chocada. Descobri que tem uma hora que as desculpas não têm mais lugar, nós temos que nos empenhar, a vida não vai esperar não.

Fui descobrir que a felicidade não está em um lugar, nem em um sonho, nem em uma coisa. Está em alguém. Então, posso dizer que, somente por essa grande descoberta minha, esse ano valeu mesmo. Meu alguém é o Rafa. Meu alguém é minha família. Meu alguém é uma amiga que mora longe. Meu alguém é quem eu possa ajudar de coração. Meu alguém é quem preze minha amizade desinteressadamente, apenas.

Então, essa foi uma síntese do meu ano. Agora chegou a hora de almejar ter a força suficiente pra continuar. Que tenhamos todos um Ano de 2012 excelente.


E, porque eu cresci, vou tentar fazer melhor.

Luiza Versamore



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...