Um dia acordei chorando, devia ter uns quatro anos, eu fui dormir angustiada porque meu primo Rafa tinha ganho de presente do tio Flavio, uma bicicleta do Batman no dia anterior, e meu vô Ary prometeu a mim que no dia seguinte ia trazer a minha. Foram duras vinte e quatro horas de espera. Nessa época a gente ainda morava todo mundo junto em um apartamento que até parecia grande para eu que era pequena (se bem que o meu boneco Fofão era do meu tamanho naquela época, e eu vi ele encolhendo com o passar dos anos...) mas o que eu estava dizendo, é que eu, por morar junto com o primo, via ele andando naquela megamáquina pelo corredor de parquet do apartamento, de rodinhas e tudo, e minha vontade de trancá-lo em algum armário e sequestrar a bici dele era tanta que não cabia em mim! Vovô então não teve outra saída, que a de trazer minha primeira bicicleta no dia seguinte.
Eu acordei na outra manhã, perguntando pela bicicleta tão esperada, e a resposta que ouvi foi que vovô não havia chegado em casa ainda, o que despertou em mim um choro temeroso e desacreditado. Já seria eu uma pequena criatura imediatista?
Chorei um pouquinho mais e não demorou muito, apareceu vô Ary no corredor em frente a porta do quarto, “Por quê ta chorando ‘bunecrinha’ do vô?”, e me mostrava o tão sonhado presente: era uma bicicletinha branca, com rodinhas azuis, tinha na parte da frente do guidão uma almofadinha emborrachada azul, banquinho da mesma cor. Demorou um pouquinho pra eu me recompor daquela manha toda e sair a dar um abraço apertado em vovô. Minha primeira bicicleta! Passaram-se dois minutos e eu já estava brincando de apostar corrida com o Rafa, no limitado espaço da sala.
Interessante como ao longo da vida, coisas que a gente queria muito e muito, já não compensam a mesma emoção que tínhamos ao almejá-las. Com as bicicletas, foi diferente. Eu fui crescendo e as mesmas foram sendo substituídas por outras maiores, eu lembro quando eu consegui andar sem as rodinhas! Indescritível sensação de que você finalmente aprendeu! Não depende mais de uma mão no banquinho pra te dar segurança. Agora, é só com você mesmo. Depois, quando já pode começar a andar nas maiores, sente que o mundo é só seu! E na vida, acho que é assim também. Só que tem muita coisa que a gente quer e, depois de um tempo, enjoa. E claro, não só no plano material. Eu, por exemplo, com treze se minha vó tivesse deixado eu já teria ido pra “balada” a tempos! Eu colocava música e me arrumava toda, e ficava, (põe maluca nisso), dançando no meu quarto, “fingindo” que tava na “night”! Hoje, sair pra dançar já não é uma coisa que me tira de casa todos os finais de semana, definitivamente.
Posso fazer uma lista de coisas que um dia fizeram eu me empolgar: teatro, vender Avon, coleção de “tazos”, bichos de pelúcia, gravador de “toca-fitas”, aprender italiano, “frisar” o cabelo, enrolar caixinhas de fósforo com papel de presente pra montar casinhas, criar códigos para escrever coisas secretas, fazer jornalismo, montar bijuterias, patinar de “roller”, tocar violão, fazer bolo sem ser de caixinha, comer salada sem frescura, pular carnaval, aprender a contar piada, fazer limpeza de pele toda semana, e mais um montão de outras coisas, que não passaram de tentativas, algumas nem isso. Simplesmente, tudo era só uma grande onda, que passou, mas, andar de bicicleta, não posso descrever o quanto eu ainda quero.
Na vida, o sopro inicial aos nossos desejos só pode ser impulsionado pela mão de quem nos ama realmente. Pode ser na sensibilidade do vô Ary em ver minha carinha de “pidona” querendo a bicicleta, ou na generosidade de meus pais ao ajudarem a me formar na faculdade. Mas a vontade de seguir pedalando, e desbravar o caminho, pertencerá sempre a mim. As rodinhas, serão meus amigos. O caminho, trilho em frente. Motivos? Não me faltam.
Luiza Versamore
PS! Gente, este post está atrasado porque ontem o Blogger estava fora do ar, o que me deixou triste, não por não poder haver publicado antes o texto, mas por somente hoje eu ter ficado sabendo que o Geraldo de Lima, do Blog Memorial de Outono não irá mais postar seus lindos e profundos textos! Desejo a você, querido amigo blogueiro, toda a felicidade que trazes ao ato de escrever. E nunca esqueça que “Escrever é viver!” Anseio que possas voltar logo, portanto não vou me despedir, a você meu sincero: até mais! "Cuide-se bem, cuide-se sempre!"
