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Elis

Eu queria dar o nome. Queria alisar a barriga de minha mãe para sentir que ela se movia dentro.

-Qual o nome? Perguntou mamãe no dia de sol.

-Margarida.

-Mas por quê? (só os filhos respondem os porquês dos sete anos convincentemente)

-É o nome da minha amiga de aula, que é albina. Eu acho ela linda.

A avó riu, dizendo que parecia nome de bisavó. Só vó Maria poderia fazer dessa uma dedução lúcida e engraçada ao mesmo tempo.

Quando Elis chegou no colo de mamãe em casa, já era Elis.  Seu cabelo castanho, tufo arrepiado. As mãozinhas fofas, com furinhos. Era minha margarida. Minha flor-bebê. Eu virei uma abelha na hora em que a vi. Por dias fiquei sobrevoando e zumbindo palavras suaves em seu ouvido. Aprendi a falar baixinho para não perturbá-la. Pedi para não ir à aula, para poder ficar rondando. Com uma semana já sabia todos seus chorinhos. Mamãe não pôde estar a sós com a bebê. Eu fechava as janelas para a hora do banho, escolhia as roupinhas, segurava a mão enquanto ela mamava. Assim, o umbigo caiu. E ali me conectei instantaneamente.

Nosso avô Ary fala que ela é a atriz preferida dele. Por motivos de saúde, ele nunca pôde assistir sua atriz no palco. Mal sabe ele que só viria a reafirmar seu pensamento. No Teatro algumas vezes (menos vezes das que quis), pude comprovar o seu talento. Senti-me diversas vezes em seu jardim, contemplando novamente minha flor.

A admiração é uma coisa que leva tempo. E minha admiração por Elis foi construída em cada folhinha de bem-me-quer. É tudo que eu vislumbraria ser. Realista, firme, consistente (com um milhão de pozinhos de pólen de braveza). Tudo que não sou: o coração enorme, altruísta. A vontade de contestar, exigindo que se exerça o bem. Quando minha flor saiu para o mundo, em busca dos seus sonhos, eu vibrei em emoção. Foi isso, foi espalhar seu dom.

E quando um dom se espalha, é para tocar vidas. É como um sol no dia de flor. Um narizinho de palhaço acariciando uma bochecha. Uma abelhinha que ronda o sorriso de quem não desiste.

Minha doce Elis, não se inquiete. Que nossa vida é palco, e improvisa quem batalha. E você é presente que chega na manhã, de leve, com covinhas no semblante.

Mamãe tinha afinal, razão.
É o seu nome que deveria ser dado à flor.

Luiza Versamore







Segredo


A avó queria desesperadamente que a páscoa tivesse outro sentido. Naquele ano, outra vez, lhe seria quase impossível. Quase. A netinha era boba, acreditava em coelho, e, na sua cabeça ele trazia ovos da Fábrica de Chocolate do filme* mesmo, pois acreditar que ele os poria? Ora, coisa sem cabimento! E a avó queria preservar aquela inocência de não saber.

Aquela noite eu não iria dormir direito. A ansiedade batia forte em meu coração achocolatado. Eram propagandas mil ao redor, na TV e também no Armazém do seu João. No jardim de infância colávamos algodão no rabo do coelhinho de cartolina. Foi então que quase abri os olhos. Senti o barulho do coelho. Entreabri um olho, para ele não perceber. Estava quase amanhecendo. Não pode ser!

Vovó estava agachada, desenhando com giz branco pequenas pegadas no chão de parquê. Pegadas de coelho. Eu sabia! Toda aquela história pra boi dormir... E no fim vovó é quem organizava a Páscoa também! Fingi que estava em bom sono, até ela sair do quarto. Havia uma pequena indignação dentro de mim. Por outro lado, gostava da brincadeira... vou achar os chocolates, ah se vou!

No ano anterior haviam sido “deixados” dentro da lareira, esse ano os encontrei no cesto de vime, coberto com um cobertor azul. Não falei nada, durante todo o dia. Primos chegaram, contando dos seus coelhos. Não mencionei o fato. Queria contar primeiro à vovó, dizer que já sabia.

Só que havia também, uma cerca. Uma cerca de arame, nos fundos de casa, que estava furada. Tinha um rombo circular por onde minha amiga Aline, mais magrinha ainda do que eu, saía pra gente brincar de casinha, passando ao pátio de nossa casa.

Vovó viu Aline na cerca, estranhamente triste. Olhava para a algazarra armada no pátio, e pra nossos beiços lambuzados e mãos manchadas do doce delicioso. Percebi o olhar de vovó, uma perturbação surgir em seu rosto, afinal, havia esquecido de Aline, a menina da casinha de madeira, dos pés descalços, das tardes em que trocávamos todos os piolhos brincando de se balançar no balanço de madeira que vô Ary havia pendurado no pé de limoeiro, e então, eu a surpreendi.

“Eu não vou contar que são os avós que dão o chocolate da páscoa!”- Ela piscou tentando compreender, enquanto eu sussurrava em seu ouvido. Então vovó me perguntou o que eu achava de dar alguns chocolates meus para Aline. A menina da casa de madeira, de chão batido. Dos dentinhos da frente, que faltavam. Da ilusão, que talvez não tivesse mais.

Foi numa tigela redonda de margarina, que eu nem sei se hoje em dia ainda existe, que eu depositei bombons e balas que havia ganho, e vovó incrementou com um fio de barbante em dois furinhos feitos no pote, para imitar uma cestinha.

Aline sorriu. Eu falei para ela aquilo que vovó pediu- que o coelho havia se enganado de endereço, e entreguei-lhe o presente.

E, então, eu e vó Maria tínhamos apenas, mais um segredo, e o sentido da páscoa, virou outro dentro da gente.


Luiza Versamore


*Se refere ao filme- A Fantática Fábrica de Chocolate: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charlie_and_the_Chocolate_Factory 


Caren


Obrigada por ter me perdoado.

Conheci muita gente em minha vida. Mas as melhores pessoas talvez tenham sido as que eu menos entendi. Deve ser porque, quando gostei de alguém de verdade, em quem confiei e me confidenciei, em determinado momento, quis também que a pessoa agisse como eu. Quantos de nós somos exatamente assim, e honestamente, sem querer?

Piaget* já fazia menção em seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo e psicológico da criança e também do adolescente, a essa tendência marcada do egocentrismo e seu papel fundamental na vida humana. Ele descreveu o Egocentrismo Adolescente como necessário ao processo adaptativo do indivíduo na sociedade. Um processo que, digamos, em algumas pessoas dura para além da idade adulta (mas não é esse o caso).

O que quero dizer é que, a mais ou menos quatorze anos atrás, eu errei feio com uma amiga, que era para comigo puro carinho e cumplicidade. E, simplesmente, eu a tirei de minha vida. Arranquei dela uma oportunidade de falar, a julguei, dei valor a mesquinharias, coisas que não importavam, por eu ser egoísta. Sem lembrar, que, em comum, também tínhamos o gosto da leitura, e, muitas vezes, ela me explicava sobre o sentido do altruísmo. Foi aí que cheguei em Piaget. Foi aí que não me enxerguei como eu realmente era. Que loucura é essa na psique humana, onde a gente pensa que vê, mas está cego? E, então, eu me deprimi muito, mas não pedi desculpas. Não vou elucidar ao leitor o porquê do que me fez fechar a cara para Caren, pois essa é uma carta de reconciliação. Uma carta de agradecimento. Uma carta sem mágoa.

Acontece que há mais ou menos um ano, encontrei-a em uma rede social. Queria pedir desculpas a ela, mas não tinha ideia se isso funcionaria. Afinal, vivenciamos e vemos todos os dias, essa incapacidade humana, de não perdoar de coração as falhas do seu semelhante, o que custamos a pôr em prática na vida cotidiana. Agora a moda é amarrar em um poste nossa própria desgraça, e açoitá-la como nos tempos de escravidão. Assim não teremos de lidar com o fato de que o errado da nossa sociedade é sua própria hipocrisia.

Numa época em que eu sabia que podia voar e ser quem eu quisesse, conheci uma amiga chamada Caren. Tínhamos muita coisa em comum. E deixei todo o comum de lado, para me apegar a pequenas coisas.

Mas ela não foi pequena como eu. Ela me concedeu suas desculpas. Concedeu-me um sorriso ao ler que (nas palavras dela)- “as pessoas se afastam por coisas bobas”...

Mas a melhor coisa que eu li foi: “O importante é que temos maturidade para não transformar este afastamento em mágoa e, sim, em uma surpresa agradável.”

Obrigada Caren. A grata surpresa de minha vida é saber que a pessoa que você é, eu quero me tornar.

Luiza Versamore


**O nome real de Caren foi preservado.




Pour Elise

O caleidoscópio e a caixinha de música vermelha: os brinquedos favoritos dos sete anos. Fui visitar os avós paternos na cidade vizinha à que eu morava. O caleidoscópio pertencia ao amigo mais querido do mundo, que coincidentemente também era meu tio, Luciano. Por uma dessas gratas surpresas da vida, ele tinha quase a minha idade, sendo eu dois anos mais nova. A caixinha de música vermelha era da minha vó Cris, e me foi “emprestada” por ela, por alguns dias, pra que eu pudesse escutar a melodia mais de mil vezes. Era uma daquelas caixinhas antigas de descanso para o telefone, que não lembro bem, mas provavelmente tocava Pour Elise*. À noite, para incomodar tio Lucho*, eu apertava o botãozinho de cima da caixinha e infernizava ele para que não dormisse. Era necessária a intervenção dos avós pra que eu parasse o desagradável tormento. Na negociação, consegui autorização para dormir agarrada com a caixinha.

Quando vó Cris entrou no quarto eu estava apontando o caleidoscópio para a janela, maravilhada pelas imagens que apareciam. Eram figuras verdes, azuis, e vermelhas, que ora pareciam estrelas, ora viravam flores. –“Nenhuma se repete, nunca!”- dizia ela. Não se repetiam mesmo. Era ficar horas tentando. Mudava de janela, procurava outros focos de luz. As formas variavam, nenhuma igual à outra. Inventei de tentar “desconstruir” o instrumento, pra saber que magia era aquela dentro dele. Claro que foi intervenção divina, vó Cris escolheu o momento certo pra barrar meu excesso de curiosidade. Quando desconfiou do meu silêncio, eu estava prestes a desmontar o brinquedo, salvo pelo poder da voz mansinha da avó.

A gente cresce e todas as coisas que tinham um significado sólido na nossa infância, passam a ter um valor quase metafórico quando nos tornamos adultos.

Aos sete anos era o caleidoscópio que prendia minha atenção com suas imagens todas diferentes e curiosas, como cabiam todas lá dentro, eu não sabia, e isso era toda a maravilha dele. Hoje, as diferentes situações da vida, já não nos deixam espaço para sermos meros expectadores. Não sobra tempo pra gente se perguntar o porquê de muitas delas. Muitas vezes não temos nem a iniciativa de querer analisar o que nos condiciona a pensar como pensamos. As milhares de situações que nos são apresentadas, e, até mesmo as corriqueiras, são vividas sem muito brilho. Por que deixar de nos cobrarmos atitudes melhores perante a vida? Sim, dá mais trabalho, mas se a gente pudesse resgatar por um instante destes muitos, aquela vontade de criança de entender como a vida funciona, veríamos com mais clareza o que realmente importa.

A caixinha de música emprestada por vó Cris foi comigo pra minha cidade, mas depois de mais negociações, ela conseguiu levar de volta ao me deixar o seu secador de cabelo em troca. Acho que deve ter sido aí que começou a minha mania de dormir com algum objeto ao lado, tipo cachorro que dorme com o ossinho. No meu inconsciente deve estar uma representação da pessoa, ou a percepção de proteção que isso me dá. Ou eu sou doida mesmo.

De qualquer forma, talvez o mundo, cheio de nuances complexas, seja tão simples quanto uma figura caleidoscópica, e a gente o complica demais.

A gente deixou de ter a sabedoria de vó Cris. Deixou de negociar uma paz interior, trocar um sentimento que nos desagrada por uma pequena possibilidade de saudade. Uma legítima e boa saudade.

Luiza Versamore


*Lucho é apelido carinhoso do tio Luciano
*Acho difícil você nunca ter escutado essa famosa de Beethoven, mas se quiser lembrar, está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w




Santa Maria


Um dia antes da tragédia ocorrida em Santa Maria, minha cidade natal, eu estava lá. Fui ver minha irmã Elis em sua apresentação teatral, última obra sua para encerramento de seu curso de Artes Cênicas, na UFSM*.  Foi um espetáculo lindo, digno de uma Beatriz de Chico Buarque**.

Fazia anos que não revia minha cidade. Sempre morei com minha família em uma cidade de fronteira, longe dali, foi somente quando saí do Ensino Médio, no ano 2000, que pude retornar a Santa Maria para estudar. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa de meu viver.

Os jovens que vão a Santa Maria pra estudar, como brinde, ganham um “cursinho básico” para a vida. Você é jovem, tem pouca grana (como eu e minha prima Nessa, na época que moramos juntas), pouca experiência, costumes e manias ‘imutáveis’ de adolescente, questionamentos e dilemas que beiram à adultez, vontade de correr atrás dos ideais reclusos na cidade pequena de onde veio, cara e coragem pra lutar.

E então, desde o primeiro dia morando sozinho, você começa a aprender. Primeiro, o choque doméstico. Você fica espantado como pode a sua roupa toda de repente sumir! Não existe uma peça limpa! Você abre automaticamente mil vezes o guarda-roupa esperando que elas se materializem limpinhas, cheirando a amaciante Fofo, e então, quando a última toalha limpa acaba: BUM! O que fazer? Parece muito simples: lavar à mão? Não é. Juntar dinheiro pra comprar uma máquina de lavar? Entre comer e pagar o Cursinho... Não é.

Estudante bom que se preze, emagrece uns cinco quilinhos no primeiro ano fora de casa! Primeiro porque acha que Nissin Miojo vai dar conta até o final da faculdade. Segundo porque acha que nunca vai ter uma dor de barriga brutal em função do velho Xis da esquina requentado (e vai parar no Pronto Socorro por conta disso). Terceiro porque às vezes ele tem que morar em um pensionato esquisito, onde a dona não deixa ele usar o fogão (sim, isso existe). E, adicionando um quarto elemento, os lugares que existem para os Universitários comerem a um preço razoável, não tem uma comida tããão razoável assim.

E também tem aquele maldito, chato e insuportável sono de adolescente. Em virtude de que agora você deve cuidar de si próprio sem direito a uma folguinha (e, se trabalha, ou estuda pra passar num vestibular de Medicina, mais), é aqui que a coisa desanda. Porque agora você divide tarefas com jovens como você, dentro da República onde mora, e hoje é seu dia de limpar o banheiro. Porque hoje é seu dia de reunir a grana da galera e enfrentar a fila do banco pra pagar as contas, antes que cortem a luz. Porque hoje, mesmo com enxaqueca, é seu dia de conversar com o cara da imobiliária pra ele fazer um conserto no apê. Não tem o dia da mamãe ou da vovó reconfortando o cochilo despreocupado no sofá da sala. E você “cai duro” na cama, dormindo em meio ao amuado pensamento, questionando se foi a melhor hora de sair de casa.

Então um dia você volta à sua cidade, como eu voltei. E, andando de ônibus até a Cidade Universitária, você se lembra de tudo, e ao invés de chorar, sorri. E agradece por ter vivido aquilo. Passa pela Avenida Presidente Vargas relembrando o velho tênis que percorria a cidade atrás de uma aula de Matemática melhor. Sonhava em que sobrasse uma graninha do apertado orçamento estudantil pra poder comprar uma calça jeans legal, quando via a loja bonita, na esquina do Calçadão. Ou talvez fosse melhor investir no rodízio de pizzas, lá na Medianeira. Ou ir numa festinha ou barzinho, comemorar todos os novos aprendizados da vida, incluindo aquela nota boa na última redação.

Não sei o que é mais injusto nesta hora. Ser pai e mãe e compartir uma dor fulminante dessas, pensando em todos esses familiares e sua perda inestimável, ou ser filha e filho, e pensar que nós vivemos como esses filhos e filhas. Nós estivemos lá, em Santa Maria, durante anos, aprendendo, realizando, tentando o nosso melhor. Nós acordamos no meio da noite, barriga roncando e sonhos incompletos, tentando nosso melhor. Nós não desistimos, apesar de tudo o que vivemos, porque nossos sonhos eram grandes demais para permitir a derrota. Nós fomos como eles, e não permitimos a estagnação e a desculpa furada de não poder fazer nada porque só podíamos fazer um pouco.*** Nós aprendemos.

Saí de Santa Maria no sábado à tarde, algumas horas antes do incêndio na boate. Estive a viagem inteira pensando em tudo que vivi, ora me emocionei, ora quis gargalhar. No dia seguinte, o fato horrível me acorda, e eu agradeço por minha irmã e meus primos estarem bem. E foi só o que eu consegui fazer.


Foi em Santa Maria que aprendi a lição mais valiosa de minha vida, e tão antagônica a este momento. Nunca esquecerei. Eu aprendi a viver.

Luiza Versamore

                                           Arte de Alpino

*UFSM: Universidade Federal de Santa Maria
**Beatriz de Chico Buarque: confira aqui
***citação de Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.


Até logo!


Uma nova oportunidade. Uma possibilidade de fazer diferente. O fato é que no Ano Novo, ninguém quer continuar igual, todos querem melhorar de alguma forma. Seria perfeito se esse desejo permanecesse flamejante em nosso pensamento ainda depois de todas essas festas, promessas, e planos...

Faz parte da ventura humana almejar alguma coisa. Desde a personalidade mais infame, até a mais engenhosa, não existe uma alma neste mundo que não queira realmente apegar-se a um objetivo. Pode ser que seja apenas o de sobreviver. Ainda assim, nesses últimos dias de 2011, a sementinha dos desejos vai tomando forma e deixando crescer dentro da gente uma vontade bem grande de ótimas realizações.

Como último post do ano, quero relatar um pouquinho dos fatos marcantes da minha vida neste ano que passou...

Bem, meu ano começou todo brando e calmo, eu e meu “namorido” morando em um país bem diferente, tentando viver as dores e as delícias de dividir o mesmo espaço, e, curiosamente, apesar dos pesares, conseguimos nos sair muito bem. Aliás, se não tivéssemos nos dado essa força, teria sido bem mais difícil passar pelo que viria adiante. É, porque, bem sabe quem já “casou”, o quanto um relacionamento verdadeiro custa à inveja alheia. Sempre você encontrará alguém sem nenhum conhecimento de causa pra vir dar “pitaco” na sua vida, como se dela soubesse mais do que você. Mas encarei isso como uma forma de mediocridade e fui adiante.

Em março postei pela primeira vez aqui no blog, um texto antiguinho que eu tinha escrito no meio de uma aula chatinha. Não postei tanto como eu supunha que seria, mas me empolguei bastante pra escrever algumas memórias. Conheci blogs interessantes e blogueiros amigos, cujo incentivo foi brilhante e fortalecedor!

Quase no meio do ano, tivemos alguns percalços, um vilão foi desmascarado (leia aqui), amizades se tornaram mais fortes, novas amizades começaram.  

Tivemos um encontro MARAVILHOSO, quando nossa família veio prestigiar nossa formatura, e foi um dos períodos de minha vida mais feliz, exatamente por estarem conosco. Foi nesse momento que pude perceber que realmente, somente as pessoas que nos amam vão estar com a gente apesar de tudo o que somos. Foi quando vi que todas as horas de dúvida, ou toda a sensação de incapacidade, e toda a espera não foi em vão. E pude ver que, mesmo com tanta coisa por vir e realizar, valeu cada segundo viver esse momento.

Depois voltamos para o Brasil, e, ao sentar na cadeira de balanço de vovó, eu enchi minha vida novamente de combustível. Foi no soprar do ventinho de outubro na sala vendo vô Ary cochilar, que eu tive certeza de algo tão angustiante, mas eu ainda não sabia (e agora vocês vão rir): eu cresci!

Gente, eu cresci! Foi tão doloroso. Mas teve seu momento de alegria também. Me dei conta de como o tempo passa, a vida continua, algumas coisas mudam bem devagar. Também percebi que é fácil não nos darmos conta disso, se na nossa cabeça não houver espaço pra mudança, estaremos fadados a estagnar! E eu me dei conta que ninguém pode me fazer ser melhor, mas eu posso. É, foi assim mesmo, eu ainda estou chocada. Descobri que tem uma hora que as desculpas não têm mais lugar, nós temos que nos empenhar, a vida não vai esperar não.

Fui descobrir que a felicidade não está em um lugar, nem em um sonho, nem em uma coisa. Está em alguém. Então, posso dizer que, somente por essa grande descoberta minha, esse ano valeu mesmo. Meu alguém é o Rafa. Meu alguém é minha família. Meu alguém é uma amiga que mora longe. Meu alguém é quem eu possa ajudar de coração. Meu alguém é quem preze minha amizade desinteressadamente, apenas.

Então, essa foi uma síntese do meu ano. Agora chegou a hora de almejar ter a força suficiente pra continuar. Que tenhamos todos um Ano de 2012 excelente.


E, porque eu cresci, vou tentar fazer melhor.

Luiza Versamore



Papai Noel

Tenho uma notícia sobre a solidão que você ainda não sabe... Em um fragmento minúsculo de tempo o aperto no peito é tanto que posso sentir a mão da sufocadora em minha garganta. E ela se torna cada vez mais sólida, e eu fico estagnada, esperando que ela se solidifique cada vez mais, sentindo que ela está virando pedra ao me tirar um pouco o ar neste segundo infinito e inexplicável.

Daí me sinto criança novamente. E presto atenção... Com certeza! É isso! A época do ano em que estou! Uma época que só pode ser da menina, da sonhadora, na pureza de um dezembro.

Naqueles anos, aquelas eram as semanas favoritas de TODO o ano... um tempo vermelho, verde e de passas de uva “roubadas” de um furinho no panetone.

Que coisa absurda, na calada solidão da distância, me dou conta que existiu magia sim. Hoje ficam alegando que o papai Noel é figura capitalista pra ajudar a transformar o Natal em uma “coisa” comercial. Tá, como criatura adulta eu tenho que aceitar que sim. Mas o papai Noel que preencheu minha infância de esperança e brilho, era o papai Noel do livrinho de capa azul que contava a historinha do Beto, um menino que queria ganhar de presente no Natal, a visita do papai Noel, porque, era o Beto quem queria dar um presente a ele. Então, pra resumir, no final do livro, o Beto dá ao papai Noel um par de meias vermelhas, tricotadas pela avó de Beto, e papai Noel fica mega agradecido porque as suas já estavam furadas. A moral no final da historinha era que “o papai Noel cuidava tanto dos presentes das pessoas que não tinha tempo pra cuidar dele mesmo”. Eu explico, porque sei que ficou meio embaçado.

O que quero dizer é que, apesar da “coisa capitalista”, meu sonho era encontrar papai Noel pra agradecer. Hoje, se ele fosse de verdade, eu iria agradecer aquela noite, na casa de vovó, onde ao pé do pinheiro cheio de luzinhas, eu ficava sentada com meu primo adivinhando o que tinha embaixo dos embrulhos. Agradeceria pela vó que tinha ido buscar o galho de pinheiro na casa do vizinho pra que eu tivesse uma árvore com aquele cheirinho de mato gostoso exalando pela sala. Agradeceria pelo momento encabulado de ter que engolir o choro na hora em que as bolinhas de natal “quebravam” na minha mão (sim, bolinhas de natal eram caríssimas e feitas de algo parecido com vidro). Agradeceria porque vi vô Ary com seu bigode grisalho, cabelo lambido pra trás, colocando as cadeiras no pátio pra esperar o pessoal. Também agradeceria porque tinha recém chegado de Alegrete e visto meus avós Cristina e Alcione, e ela tinha deixado eu dormir uma noite inteira com uma caixinha de música com a qual eu “infernizei” meu titio Lucho, fazendo ela tocar bem na hora que ele ia pegar no sono! (Ele, certamente, não nutre essa saudade!)

Agradeceria sim ao papai Noel, essa noite de felicidade sem igual, em que minha mãe (ainda) não era a “gourmet” da nossa ceia, mas fazia uns sanduichinhos deliciosos de mostarda pra gente beliscar. 

Mas o momento mais lindo de todos, que eu agradeceria de verdade verdadeira, seria aquele momento dos abraços. Aquele encontro de olhares risonhos, quando chegava a meia-noite, e os tios e tias vinham levantar a gente no colo, onde existia também neles uma esperança de que tudo seria melhor, e que tudo valeria a pena. Era um pensamento tristonho de saber que papai vivia longe, e eu não o veria, mas afinal, era Natal. Era um momento grandioso demais pra durar tão pouco, mas, se durasse mais além do que deveria, não seria hoje com certeza, essa lembrança apertada, saudosa, forte.

Então eu cresci. E cada integrante de nossa família cresceu também. E sei que todos dentro dela têm coisas pra agradecer.
Talvez a vida de cada um tenha tomado rumos que naquela época não se podia prever. Vivemos muita coisa, longe ou perto. A gente se reencontrou, viveu, chorou e riu como nunca. A gente trocou os melhores presentes, que são aqueles que damos sem perceber aos que amamos: uma lembrança pura.

Então, crescemos. E, pela primeira vez na vida, por essas coisas que são como as bolinhas de natal daquele tempo antigo, lindas e delicadas, e, que a gente aperta demais e se machuca, eu estou aqui, morando bem longe.

Mas tem uma coisa: a solidão pode vir e me apertar o quanto ela quiser. Não acredito nela não. Eu acredito em papai Noel.

Luiza Versamore


Desafio!

Oi gente! Recebi esse divertido desafio da Jel, do Blog Papo Bacana!

Sublinhe as coisas que você já fez:

1-Pagar uma bebida aos amigos

2-Pegar num tubarão

3-Dizer “eu te amo” sentindo amor de verdade

4-Abraçar uma árvore

5-Achar que vai morrer

6-Ficar acordado a noite inteira e ver o nascer do sol

7-Não dormir por 24h

8-Cultivar e comer os seus próprios vegetais

9-Dormir sobre as estrelas

10-Mudar a fralda de uma criança

11-Ver uma estrela cadente

12-Ficar embriagado

13-Doar coisas pra caridade

14-Olhar para o céu e achar o Cruzeiro do Sul

15-Ter um ataque de riso na pior altura possível

16-Fazer uma luta de comida

17-Apostar e perder

18-Convidar um estranho para sair

19-Fazer guerrinha de papel

20-Gritar o mais alto que puder

21-Pegar num cordeiro

22-Andar de montanha-russa

23-Dançar como um louco e não se preocupar se estão olhando

24-Falar com um sotaque por um dia inteiro (só gauchês, vale?)

25-Estar mesmo feliz com a sua vida

26-Ter dois hard drives para o computador

27-Conhecer o seu país

28-Cuidar de alguém embriagado

29-Ter amigos fantásticos

30-Dançar com um estranho

31-Roubar uma placa/sinal de trânsito

32-Fazer um passeio de noite na praia

33-Ficar de coração partido mais tempo do que se esteve realmente apaixonado

34-Sentar na mesa de um estranho num restaurante e comer com ele

35-Imitar uma vaca

36-Fingir que se é um super-herói *heroína no meu caso!

37-Cantar karaokê

38-Mergulhar

39-Beijar na chuva

40-Brincar na lama

41-Brincar na chuva

42-Apaixonar-se e não ficar de coração partido

43-Visitar locais ancestrais

44-Fazer uma arte marcial

45-Entrar num filme

46-Ser penetra numa festa

47-Ficar sem comer 5 dias

48-Fazer um bolo sozinho

49-Fazer uma tatuagem

50-Receber flores sem razão

51-Representar num palco

52-Gravar uma música

53-Ter um caso de uma noite

54-Guardar um segredo

55-Cantar bem alto no carro e não parar quando perceber que tem gente olhando

56-Sobreviver a uma doença em que se podia haver morrido

57-Perder dinheiro

58-Cuidar de alguém com dor de cotovelo

59-Fazer uma festa legal

60-Partir o coração de alguém     * não foi por querer

61-Colocar um piercing

62-Andar a cavalo

63-Fazer uma grande cirurgia

64-Comer sushi

65-Ter uma foto sua no jornal

66-Mudar a opinião de alguém sobre alguma coisa em que acreditas profundamente

67-Fazer de um inseto um animal de estimação

68-Selecionar um autor importante que não trabalhou na escola e lê-lo

69-Comunicar-se com uma pessoa sem partilhar uma língua em comum

70-Escrever a sua própria linguagem no computador

71-Pensar que está vivendo um sonho

72-Pintar o cabelo

73-Ter relação com alguém do mesmo sexo

74-Comer meleca

75-Salvar a vida de alguém



Tenho que indicar o desafio para 5 Blogueiros:



1-Lu (NO MUNDO DA LU)

2-Ana Rafiq (Ser, Estar e Viver!)

3-Su the best (Viver é Aprender)

4-Bruna Albuquerque (Uma pitada de Bruna)

5-Su (Entre um drinque e outro)




A mão que move o mundo

Um dia acordei chorando, devia ter uns quatro anos, eu fui dormir angustiada porque meu primo Rafa tinha ganho de presente do tio Flavio, uma bicicleta do Batman no dia anterior, e meu vô Ary prometeu a mim que no dia seguinte ia trazer a minha. Foram duras vinte e quatro horas de espera. Nessa época a gente ainda morava todo mundo junto em um apartamento que até parecia grande para eu que era pequena (se bem que o meu boneco Fofão era do meu tamanho naquela época, e eu vi ele encolhendo com o passar dos anos...) mas o que eu estava dizendo, é que eu, por morar junto com o primo, via ele andando naquela megamáquina pelo corredor de parquet do apartamento, de rodinhas e tudo, e minha vontade de trancá-lo em algum armário e sequestrar a bici dele era tanta que não cabia em mim! Vovô então não teve outra saída, que a de trazer minha primeira bicicleta no dia seguinte.

Eu acordei na outra manhã, perguntando pela bicicleta tão esperada, e a resposta que ouvi foi que vovô não havia chegado em casa ainda, o que despertou em mim um choro temeroso e desacreditado. Já seria eu uma pequena criatura imediatista?

Chorei um pouquinho mais e não demorou muito, apareceu vô Ary no corredor em frente a porta do quarto, “Por quê ta chorando ‘bunecrinha’ do vô?”, e me mostrava o tão sonhado presente: era uma bicicletinha branca, com rodinhas azuis, tinha na parte da frente do guidão uma almofadinha emborrachada azul, banquinho da mesma cor. Demorou um pouquinho pra eu me recompor daquela manha toda e sair a dar um abraço apertado em vovô. Minha primeira bicicleta! Passaram-se dois minutos e eu já estava brincando de apostar corrida com o Rafa, no limitado espaço da sala.

Interessante como ao longo da vida, coisas que a gente queria muito e muito, já não compensam a mesma emoção que tínhamos ao almejá-las. Com as bicicletas, foi diferente. Eu fui crescendo e as mesmas foram sendo substituídas por outras maiores, eu lembro quando eu consegui andar sem as rodinhas! Indescritível sensação de que você finalmente aprendeu! Não depende mais de uma mão no banquinho pra te dar segurança. Agora, é só com você mesmo. Depois, quando já pode começar a andar nas maiores, sente que o mundo é só seu! E na vida, acho que é assim também. Só que tem muita coisa que a gente quer e, depois de um tempo, enjoa. E claro, não só no plano material. Eu, por exemplo, com treze se minha vó tivesse deixado eu já teria ido pra “balada” a tempos! Eu colocava música e me arrumava toda, e ficava, (põe maluca nisso), dançando no meu quarto, “fingindo” que tava na “night”! Hoje, sair pra dançar já não é uma coisa que me tira de casa todos os finais de semana, definitivamente.

Posso fazer uma lista de coisas que um dia fizeram eu me empolgar: teatro, vender Avon, coleção de “tazos”, bichos de pelúcia, gravador de “toca-fitas”, aprender italiano, “frisar” o cabelo, enrolar caixinhas de fósforo com papel de presente pra montar casinhas, criar códigos para escrever coisas secretas, fazer jornalismo, montar bijuterias, patinar de “roller”, tocar violão, fazer bolo sem ser de caixinha, comer salada sem frescura, pular carnaval, aprender a contar piada, fazer limpeza de pele toda semana, e mais um montão de outras coisas, que não passaram de tentativas, algumas nem isso. Simplesmente, tudo era só uma grande onda, que passou, mas, andar de bicicleta, não posso descrever o quanto eu ainda quero.

Na vida, o sopro inicial aos nossos desejos só pode ser impulsionado pela mão de quem nos ama realmente. Pode ser na sensibilidade do vô Ary em ver minha carinha de “pidona” querendo a bicicleta, ou na generosidade de meus pais ao ajudarem a me formar na faculdade.  Mas a vontade de seguir pedalando, e desbravar o caminho, pertencerá sempre a mim. As rodinhas, serão meus amigos. O caminho, trilho em frente. Motivos? Não me faltam.

Luiza Versamore


    PS! Gente, este post está atrasado porque ontem o Blogger estava fora do ar, o que me deixou triste, não por não poder haver publicado antes o texto, mas por somente hoje eu ter ficado sabendo que o Geraldo de Lima, do Blog Memorial de Outono não irá mais postar seus lindos e profundos textos! Desejo a você, querido amigo blogueiro, toda a felicidade que trazes ao ato de escrever. E nunca esqueça que “Escrever é viver!” Anseio que possas voltar logo, portanto não vou me despedir, a você meu sincero: até mais! "Cuide-se bem, cuide-se sempre!"

Com palavras não sei dizer...



 Cheguei em casa naquele final da manhã, estava irritada por alguma coisa que não lembro (tamanha importância que não tinha), estava com quinze anos, dramaticidade total, passei pela cozinha onde minha avo Maria começava a fazer o almoço, escutei um carinhoso “Oi, filha!”, e no meu egocentrismo desvairado de adolescente, olhei-a de cara fechada e entrei em meu quarto. Ora, como não estivera o começo do dia de acordo com minha vontade, porque haveria eu de ser carinhosa também?Aliás, aquela música tocando no rádio, enquanto a panela do feijão chiava, aromatizando o ambiente de um sabor de almoço em família, me desagradara profundamente. Por que escutar música se o meu mundo carecia de um silêncio profundo onde eu pudesse pôr meus pensamentos em ordem? Nesse balde imenso de egoísmo, assomei de novo à porta da cozinha e desdenhei das canções, e, irritada, perguntei a minha avó se ela nunca se cansava de passar as manhãs escutando aquele “péssimo” repertório! Ela me olhou, séria, e abaixou o volume do rádio. Então, como a pessoa que melhor me conhecia, começou a indagar o porquê de eu estar me comportando daquele jeito. O fato, é que eu acabei contando a ela os meus motivos, e depois de um breve choro magoado, e uma rápida conversa consoladora, quem me jogou um “balde”, foi ela! Um banho de otimismo, de males espantados! Envergonhada, elevei de novo o botão do volume, e aquela música instrumental de almoço teve outro significado.

Em meus dias de menina, não me recordo sequer um dia em que estive sem escutar com ela alguma embalada melodia do “Rei”. Duas memórias relevantes: a primeira eram das “siestas”... Eu tinha uns cinco anos, e o cochilo depois do almoço, e da limpeza da cozinha, é claro, pois vó Maria não dorme enquanto ainda tem “serviço”, (até hoje!), era ninado por Roberto Carlos! Que coisa mais antiga aquela música, a maioria não vai lembrar, mas tudo bem, dizia:

 
“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito

Que eu sonhei em toda a minha vida

Sonhei que todo mundo vivia preocupado

Tentando encontrar uma saída

Quando em minha porta alguém tocou

Sem que ela se abrisse ele entrou

E era algo tão divino, luz em forma de menino

Que uma canção me ensinou... La, La, La, La, La...”



Eu nunca dormia nadinha nessas “siestas”, ela me dava uns desenhos pra pintar e eu ficava quietinha, no chão ao lado da cama, entretida colorindo, enquanto ela tirava a soneca bem merecida depois de haver feito o melhor feijão do mundo. Na verdade, eu estava prestando super atenção na letra da música, fazendo uma viagem em minha cabeça, visualizando aquele menino entrando na casa do Roberto Carlos, que no meu pensamento, estaria tocando violão no sofá da sala, o menino simpático sorrindo pra ele, uma luz ofuscando a visão do cantor, maravilhado com aquela visita... esse pensamento ainda hoje me vem à memoria quando a escuto , em alguma sessão “sarcófago” na madrugada, é claro. Eu me sinto como se estivesse lá naquele quarto ainda, usando escondidinha um papel-carbono que ela usava pra fazer seus artesanatos.

Outra do Roberto que marcou (que era mais da vó Maria, que do Rei a essa altura da vida), foi “Como é grande o meu amor por você”.

Um dia aconteceu que a “tia” da segunda série avisou em aula que a turma toda iria cantar essa letra no Dia das Mães, como homenagem. Lá chegava a tia Beth no Salão de Atos do Colégio, com um toca-fitas gigante (que coisa velha) e começava a cantoria. E eu ainda hoje tenho uma foto deste dia! Na parte da estrofe a gente botava a mãozinha no coração e depois oferecia o “amor por você” para as mães. A foto até teria saído bonita não fosse um “porta-moeda” (de pulso!) cor amarelo-fosforescente-restart com fecho preto que estava super na moda, e uma calça fusô vermelha-restart de lã (credo!) que pra ficar mais “delicadinha” ainda, tinha um “big” elástico branco encaixando no pé, pra não subir durante alguma correria no recreio. Mas o que importa é que vó Maria estava lá, toda faceira, meus olhinhos encontraram os dela quando saí daquele palco de madeira ao seu encontro, ela muito emocionada pelo evento.

Fiquei lembrando disso tudo, todos os dias eu saindo pra ir à escola, voltando pra casa, dando um beijo na hora de dormir, ela deitadinha já com o rádio bem baixinho tocando no ouvido... Temos como repertório de nossa convivência um milhão de músicas, das quais com certeza milhares são de Roberto, outras milhares mais antigas, de vários artistas (daí que eu tenho uma fixação por discos antigos), e todas nos fazem recordar uma à outra. Aliás, enquanto estou aqui escrevendo, ela esta lá, espantando algum pensamento das saudades que isso tudo nos deixou, certamente ouvindo alguma coisa que gravei no PC, e que ela ouve, ainda com alguma hesitação, pois não confia em CDs que não são originais...

Coisas de vó Maria: o feijão mais gostoso, a preocupação mais sincera, a mania de musicar a casa, e oferecer-me as tintas com as quais fui aquarelando pelo mundo, um pouco fosforescentes de vez em quando, mas iluminadas como sempre.



Luiza Versamore










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