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Elis

Eu queria dar o nome. Queria alisar a barriga de minha mãe para sentir que ela se movia dentro.

-Qual o nome? Perguntou mamãe no dia de sol.

-Margarida.

-Mas por quê? (só os filhos respondem os porquês dos sete anos convincentemente)

-É o nome da minha amiga de aula, que é albina. Eu acho ela linda.

A avó riu, dizendo que parecia nome de bisavó. Só vó Maria poderia fazer dessa uma dedução lúcida e engraçada ao mesmo tempo.

Quando Elis chegou no colo de mamãe em casa, já era Elis.  Seu cabelo castanho, tufo arrepiado. As mãozinhas fofas, com furinhos. Era minha margarida. Minha flor-bebê. Eu virei uma abelha na hora em que a vi. Por dias fiquei sobrevoando e zumbindo palavras suaves em seu ouvido. Aprendi a falar baixinho para não perturbá-la. Pedi para não ir à aula, para poder ficar rondando. Com uma semana já sabia todos seus chorinhos. Mamãe não pôde estar a sós com a bebê. Eu fechava as janelas para a hora do banho, escolhia as roupinhas, segurava a mão enquanto ela mamava. Assim, o umbigo caiu. E ali me conectei instantaneamente.

Nosso avô Ary fala que ela é a atriz preferida dele. Por motivos de saúde, ele nunca pôde assistir sua atriz no palco. Mal sabe ele que só viria a reafirmar seu pensamento. No Teatro algumas vezes (menos vezes das que quis), pude comprovar o seu talento. Senti-me diversas vezes em seu jardim, contemplando novamente minha flor.

A admiração é uma coisa que leva tempo. E minha admiração por Elis foi construída em cada folhinha de bem-me-quer. É tudo que eu vislumbraria ser. Realista, firme, consistente (com um milhão de pozinhos de pólen de braveza). Tudo que não sou: o coração enorme, altruísta. A vontade de contestar, exigindo que se exerça o bem. Quando minha flor saiu para o mundo, em busca dos seus sonhos, eu vibrei em emoção. Foi isso, foi espalhar seu dom.

E quando um dom se espalha, é para tocar vidas. É como um sol no dia de flor. Um narizinho de palhaço acariciando uma bochecha. Uma abelhinha que ronda o sorriso de quem não desiste.

Minha doce Elis, não se inquiete. Que nossa vida é palco, e improvisa quem batalha. E você é presente que chega na manhã, de leve, com covinhas no semblante.

Mamãe tinha afinal, razão.
É o seu nome que deveria ser dado à flor.

Luiza Versamore







Gabi

O bebê mais risonho do mundo. Uma menina doce com cara de sorriso. Ela sorri toda, desde pequenina. Quando sorri, o sol se derrama dentro da gente.

Eram sete da manhã quando Gabi abriu os pequenos olhinhos verdes, ainda no berço. Piscou e imediatamente iluminou o quarto. Acordei com sua luz abrilhantando o ambiente. A espiei sorrateiramente. Um riso desdentado apareceu. Eu ri de volta. Minha irmã mais nova era o bebezão que eu queria ter pra brincar quando pequena. Era a boneca que emitia sons, barulhinhos engraçados. Era a boneca com cheirinho de xampu infantil. Minha boneca. Eu era magrela, bracinhos de grilo. Não podia pegá-la no colo sem supervisão de adulto. Mas podia colocar meu braço fino por entre as arestas do berço para tocar no seu bracinho gordo. E ela ria, querendo pegar.

Posso dizer que um obstáculo tentou se interpor em nossa estrada da vida: morar em estados distantes. Ver a ela e Camila nas férias era tão almejado quanto ver nosso pai. A distância é uma coisa injusta. É um momento de saudade do que poderia ter sido.

Só que, quase inacreditavelmente, também existe um lado justo- a distância confere valor de trailer de cinema em nossa vida, no momento em que a saudade se desfaz e nós nos reencontramos com quem amamos. Não havia tempo pra eu brigar, nem discutir, nem me emburrar com as irmãs. Eu as queria proteger, fazer penteados, admirar o sotaque. Era oportunidade de conhecê-las de novo, cada ano em uma nova fase da vida.

E, de repente, é numa batida de coração que tudo acontece. Por conta de um defeito congênito, aos dezoito anos Gabi passou por uma cirurgia cardíaca. Que suportou sem se vitimar. Que superou mostrando a todos que pior defeito tem quem não tem um Coração como o dela.

 Minha irmã mais nova faz aniversário hoje, e eu me pego a refletir (didaticamente, como a futura professora):
1-       Que o tempo só volta na nossa memória, por isso devemos fazer com que ele valha a pena;

2-   Que minha tentativa de ficar loira aos doze anos, pra ter o cabelo de Gabi, fracassou pavorosamente;

3-    Que não é porque Gabi na minha cabeça é ainda um bebê, que nunca vai se apaixonar, e namorar, e viver;

4- Que minhas três irmãs me ensinam todos os dias o significado de um amor incondicional.

Se eu pudesse fazer um trailer, Gabi, nosso filme seria o seguinte: a distância física entre nós seria seu bercinho de dormir. Com minha mão eu tentaria lhe alcançar. Com seu sorriso, você me alcançaria.

Luiza Versamore






Caren


Obrigada por ter me perdoado.

Conheci muita gente em minha vida. Mas as melhores pessoas talvez tenham sido as que eu menos entendi. Deve ser porque, quando gostei de alguém de verdade, em quem confiei e me confidenciei, em determinado momento, quis também que a pessoa agisse como eu. Quantos de nós somos exatamente assim, e honestamente, sem querer?

Piaget* já fazia menção em seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo e psicológico da criança e também do adolescente, a essa tendência marcada do egocentrismo e seu papel fundamental na vida humana. Ele descreveu o Egocentrismo Adolescente como necessário ao processo adaptativo do indivíduo na sociedade. Um processo que, digamos, em algumas pessoas dura para além da idade adulta (mas não é esse o caso).

O que quero dizer é que, a mais ou menos quatorze anos atrás, eu errei feio com uma amiga, que era para comigo puro carinho e cumplicidade. E, simplesmente, eu a tirei de minha vida. Arranquei dela uma oportunidade de falar, a julguei, dei valor a mesquinharias, coisas que não importavam, por eu ser egoísta. Sem lembrar, que, em comum, também tínhamos o gosto da leitura, e, muitas vezes, ela me explicava sobre o sentido do altruísmo. Foi aí que cheguei em Piaget. Foi aí que não me enxerguei como eu realmente era. Que loucura é essa na psique humana, onde a gente pensa que vê, mas está cego? E, então, eu me deprimi muito, mas não pedi desculpas. Não vou elucidar ao leitor o porquê do que me fez fechar a cara para Caren, pois essa é uma carta de reconciliação. Uma carta de agradecimento. Uma carta sem mágoa.

Acontece que há mais ou menos um ano, encontrei-a em uma rede social. Queria pedir desculpas a ela, mas não tinha ideia se isso funcionaria. Afinal, vivenciamos e vemos todos os dias, essa incapacidade humana, de não perdoar de coração as falhas do seu semelhante, o que custamos a pôr em prática na vida cotidiana. Agora a moda é amarrar em um poste nossa própria desgraça, e açoitá-la como nos tempos de escravidão. Assim não teremos de lidar com o fato de que o errado da nossa sociedade é sua própria hipocrisia.

Numa época em que eu sabia que podia voar e ser quem eu quisesse, conheci uma amiga chamada Caren. Tínhamos muita coisa em comum. E deixei todo o comum de lado, para me apegar a pequenas coisas.

Mas ela não foi pequena como eu. Ela me concedeu suas desculpas. Concedeu-me um sorriso ao ler que (nas palavras dela)- “as pessoas se afastam por coisas bobas”...

Mas a melhor coisa que eu li foi: “O importante é que temos maturidade para não transformar este afastamento em mágoa e, sim, em uma surpresa agradável.”

Obrigada Caren. A grata surpresa de minha vida é saber que a pessoa que você é, eu quero me tornar.

Luiza Versamore


**O nome real de Caren foi preservado.




Santa Maria


Um dia antes da tragédia ocorrida em Santa Maria, minha cidade natal, eu estava lá. Fui ver minha irmã Elis em sua apresentação teatral, última obra sua para encerramento de seu curso de Artes Cênicas, na UFSM*.  Foi um espetáculo lindo, digno de uma Beatriz de Chico Buarque**.

Fazia anos que não revia minha cidade. Sempre morei com minha família em uma cidade de fronteira, longe dali, foi somente quando saí do Ensino Médio, no ano 2000, que pude retornar a Santa Maria para estudar. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa de meu viver.

Os jovens que vão a Santa Maria pra estudar, como brinde, ganham um “cursinho básico” para a vida. Você é jovem, tem pouca grana (como eu e minha prima Nessa, na época que moramos juntas), pouca experiência, costumes e manias ‘imutáveis’ de adolescente, questionamentos e dilemas que beiram à adultez, vontade de correr atrás dos ideais reclusos na cidade pequena de onde veio, cara e coragem pra lutar.

E então, desde o primeiro dia morando sozinho, você começa a aprender. Primeiro, o choque doméstico. Você fica espantado como pode a sua roupa toda de repente sumir! Não existe uma peça limpa! Você abre automaticamente mil vezes o guarda-roupa esperando que elas se materializem limpinhas, cheirando a amaciante Fofo, e então, quando a última toalha limpa acaba: BUM! O que fazer? Parece muito simples: lavar à mão? Não é. Juntar dinheiro pra comprar uma máquina de lavar? Entre comer e pagar o Cursinho... Não é.

Estudante bom que se preze, emagrece uns cinco quilinhos no primeiro ano fora de casa! Primeiro porque acha que Nissin Miojo vai dar conta até o final da faculdade. Segundo porque acha que nunca vai ter uma dor de barriga brutal em função do velho Xis da esquina requentado (e vai parar no Pronto Socorro por conta disso). Terceiro porque às vezes ele tem que morar em um pensionato esquisito, onde a dona não deixa ele usar o fogão (sim, isso existe). E, adicionando um quarto elemento, os lugares que existem para os Universitários comerem a um preço razoável, não tem uma comida tããão razoável assim.

E também tem aquele maldito, chato e insuportável sono de adolescente. Em virtude de que agora você deve cuidar de si próprio sem direito a uma folguinha (e, se trabalha, ou estuda pra passar num vestibular de Medicina, mais), é aqui que a coisa desanda. Porque agora você divide tarefas com jovens como você, dentro da República onde mora, e hoje é seu dia de limpar o banheiro. Porque hoje é seu dia de reunir a grana da galera e enfrentar a fila do banco pra pagar as contas, antes que cortem a luz. Porque hoje, mesmo com enxaqueca, é seu dia de conversar com o cara da imobiliária pra ele fazer um conserto no apê. Não tem o dia da mamãe ou da vovó reconfortando o cochilo despreocupado no sofá da sala. E você “cai duro” na cama, dormindo em meio ao amuado pensamento, questionando se foi a melhor hora de sair de casa.

Então um dia você volta à sua cidade, como eu voltei. E, andando de ônibus até a Cidade Universitária, você se lembra de tudo, e ao invés de chorar, sorri. E agradece por ter vivido aquilo. Passa pela Avenida Presidente Vargas relembrando o velho tênis que percorria a cidade atrás de uma aula de Matemática melhor. Sonhava em que sobrasse uma graninha do apertado orçamento estudantil pra poder comprar uma calça jeans legal, quando via a loja bonita, na esquina do Calçadão. Ou talvez fosse melhor investir no rodízio de pizzas, lá na Medianeira. Ou ir numa festinha ou barzinho, comemorar todos os novos aprendizados da vida, incluindo aquela nota boa na última redação.

Não sei o que é mais injusto nesta hora. Ser pai e mãe e compartir uma dor fulminante dessas, pensando em todos esses familiares e sua perda inestimável, ou ser filha e filho, e pensar que nós vivemos como esses filhos e filhas. Nós estivemos lá, em Santa Maria, durante anos, aprendendo, realizando, tentando o nosso melhor. Nós acordamos no meio da noite, barriga roncando e sonhos incompletos, tentando nosso melhor. Nós não desistimos, apesar de tudo o que vivemos, porque nossos sonhos eram grandes demais para permitir a derrota. Nós fomos como eles, e não permitimos a estagnação e a desculpa furada de não poder fazer nada porque só podíamos fazer um pouco.*** Nós aprendemos.

Saí de Santa Maria no sábado à tarde, algumas horas antes do incêndio na boate. Estive a viagem inteira pensando em tudo que vivi, ora me emocionei, ora quis gargalhar. No dia seguinte, o fato horrível me acorda, e eu agradeço por minha irmã e meus primos estarem bem. E foi só o que eu consegui fazer.


Foi em Santa Maria que aprendi a lição mais valiosa de minha vida, e tão antagônica a este momento. Nunca esquecerei. Eu aprendi a viver.

Luiza Versamore

                                           Arte de Alpino

*UFSM: Universidade Federal de Santa Maria
**Beatriz de Chico Buarque: confira aqui
***citação de Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.


Distimia



 A depressão é a doença da alma mais egoísta que existe. Uma pessoa em depressão não causa mal somente a ela, torna-se um cruel algoz do bem-estar alheio e familiar. Mas o pior transtorno ligado à depressão é o Distúrbio Distímico ou Distimia, entidade dificilmente diagnosticada, e que quase sempre resulta da observação feita por um familiar.

Resulta que este transtorno, por se arrastar por mais de dez anos na grande maioria das vezes carente de diagnóstico, acaba sendo aceito pelo próprio paciente como seu estado normal de ser. Acaba-se tornando cotidiano, suportável, confundido com mau-humor crônico. As pessoas ao redor até percebem que algo vai mal, mas como o distímico tende a destratar quem pretende alertá-lo, ou achar irrelevante qualquer observação a respeito, ninguém se atreve a tentar despertá-lo de seu estado “normal” de ser.

Trata-se de uma manifestação mais lenta da depressão. O distímico vem durante anos cultivando aspectos depressivos que são aparentemente mais leves, mas também mais duradouros se comparados a um estado de Depressão Endógena, que é a depressão mais marcada, aquela que se sente, por exemplo, em algum episódio de luto ou perda, quando o sentimento de tristeza se estende por mais de dois meses após o infortúnio. Inclusive as duas podem existir concomitantemente, em um quadro chamado Depressão Dupla, mas sempre a Distimia segue persistindo, ou antecipa a endógena. Assim, o indivíduo acaba resolvendo os episódios de depressão isolados por algum problema ou stress, mas não consegue transpassar a distimia.

Por uma série de fatores as duas modalidades depressivas passam a se confundir, mas não se pode esquecer que as duas fazem parte de uma classificação chamada Distúrbios do Humor, e são consideradas doenças depressivas, ou seja, as duas têm componentes depressivos comuns. Distúrbios do Humor são perturbações na regulação do humor, do comportamento e do afeto, segundo o DSM-IV*. 

O distímico, ao contrário do que se pode pensar, não é triste. Ele passa essa imagem constantemente, mas o que realmente sente é um sentimento de vazio, indiferença e desinteresse permanentes. Esse comportamento é alternado por poucos dias no mês em que sente bem-estar consigo ou na presença de outras pessoas. Ele deixa claro que não se importa em estar sozinho, e, com isso, afasta os demais, estendendo seu duro humor por semanas, aparentemente sem sentir culpa.

Uma característica que chama atenção no distímico é o pessimismo acentuado em relação às pessoas. Não quer esforçar-se por ser querido, pelo contrário, acha que é uma perda de tempo dar atenção, inclusive aos que ama. Não tem um pensamento definido quanto a isso e pode até contra arrestar essa ideia, mas suas atitudes de impaciência e irritabilidade facilmente o delatam. Experimenta a anedonia, que é a falta de prazer nas atividades que antes lhe davam alegria. Alterações digestivas, do apetite e do sono são comuns neste transtorno, com comprometimento da concentração quase sempre prevalente.

Mas, você deve estar se perguntando, se a pessoa sente-se “normal” com a distimia, porque não deixá-la viver assim? Bem, foi assinalando o aspecto egoísta da doença que eu comecei esse texto. O distímico simplesmente não se dá conta de que sua alma está doente. Não se importa com isso, acha que não está afetando ninguém. Vê o mundo que criou para si como uma forma de se proteger da dor, não percebendo que injustamente seus entes queridos sofrem por ele.

Ajudar ao distímico é muito mais complicado que ajudar ao depressivo endógeno. Isso porque simplesmente o indivíduo distímico segue sua vida como se nada estivesse errado. Trabalha, atravessa os dias emburrado, cumpre tarefas cotidianas sem nenhum prazer, mas segue vivendo. O depressivo marcado não consegue desempenhar atividade alguma, pede ajuda porque evidencia seus atos depressivos desesperadamente, se observa nele uma mudança brusca de comportamento. Já o distímico permanece o mesmo de alguns anos atrás, todos ao redor se acostumaram com seu jeito, alguns inclusive nunca o perceberam diferente.

Mas, mais difícil do que essa pessoa aceitar sua distimia é fazer com que ela queira MUDAR isso. Afinal quem não faz questão alguma na vida de corresponder às necessidades de afeto dos que o rodeiam, sempre sentindo que viver é cumprir obrigação de acordar e dormir, e muito menos se sente agradecido por ter saúde e meios sociais básicos disponíveis ao seu viver, terá uma grande barreira na visão de que ALGO ESTÁ MAL. Passará mais anos de vazio e solidão, culpando os demais por não terem tido valor suficiente de aguentarem seu descaso consigo mesmo.

O grande problema da distimia é que ela não é considerada pela medicina atual como tão perigosa à saúde mental do indivíduo como a depressão endógena. Isso ocorre porque a depressão endógena, por ser causa frequente de suicídio, pode ser abreviada pela intervenção de um familiar assim que se manifesta, resultando em tratamento imediato. A distimia não. A distimia vive dentro do indivíduo, matando suas relações interpessoais e deixando que ele exista, mas não viva. Não o desespera, não o exaspera.

É tão egoísta que não dói em si, e sim nos que o amam.


Luiza Versamore


                               
                              Arte de Heather Horton, confira mais aqui.


 "A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana."  Vinicius de Moraes


*DSM-IV: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- 4º Ed.


Uma Resposta

Em meio ao ruído ensurdecedor de tanta coisa que acontece no mundo, eu me pus a pensar no nosso propósito de viver. 

Na semana que passou, no domingo, fiquei sabendo de uma triste notícia que me surpreendeu e me comoveu de um jeito tocante. Uma prima querida, nova ainda, faleceu lá na minha cidade, no Rio Grande do Sul. O que eu lembrei na hora que minha mãe me contou o ocorrido: uma luz imensa, que provinha de um sorriso encantador e vívido.

Fiquei a pensar no tempo. Será que vivendo longe estarei eu perdendo o tempo necessário que deveria estar dividindo com meus seres queridos, já que para mim, o  mundo parece não ter sentido sem eles? Será que o tempo não significará mais nada do que algo que faz a gente ir envelhecendo e perdendo nossos segundos a cada dia? Pensei, pensei, pensei. Mas não fiquei contente. Não fiquei feliz com as perguntas, na verdade. Porque as respostas me parecem cada vez mais claras: nossa função no mundo é simplesmente... viver!

Uma missão nessa vida, é claro, todos nós temos. Essa busca incessante do ser-humano de sobreviver num mundo tão adverso de situações é exatamente o que nos torna tão ávidos a ela. Na luta de cada dia, às vezes deixamos de lado questões profundas referentes ao nosso existir. Menosprezamos muitas vezes uma chance pequena de fazer diferente. Essa busca da felicidade através do estudo, do trabalho, do bem-fazer. Podemos fazer tudo isso junto? Ainda lembro do ego inflamado de adolescente, quem podia com a gente? Nós revolucionaríamos tudo! “Mas, espera aí, Senhor Tempo!” “Posso dar uma palavrinha com o Senhor?”  Não eram bem essas as etapas que eu esperava transpor no meio do caminho. Também não eram tantas as noites em claro, pensando demoradamente na vida. Não era esse “tantão” assim de paciência que eu achei que o viver exigiria, e mais ainda, a convivência com o próximo, por vezes, mil léguas longe de uma pequena evolução (emocional).

O tempo, a vida, os prazos que determinam tudo. Viver, pra mim, é buscar evoluir. Evoluo, na medida em que busco dentro de mim esse alguém que se desprovê de pequenos egoísmos e julgamentos fúteis acerca dos outros. Sigo evoluindo quando passo a ser um instrumento de carinho e paciência, essa última, demasiadamente esquecida nesse mundo de tantos porquês.

E a vida, bela, totalmente luz.
Presumo então, que por isso vale a pena. E é isso o que fica: uma saudade, um sorriso, uma felicidade de poder ter dividido num instante, aquele imenso sorriso.

Luiza Versamore



”Ninguém se eleva, sem esforço máximo da vontade, dos campos do hábito para as regiões iluminadas da experiência. Entretanto, ninguém atinge as múltiplas regiões da experiência sem passaportes adquiridos nas agências da dor.” Emmanuel


No meio do caminho havia um sorriso

Hoje, minha mãe faz aniversário. Uma mulher forte, sem dúvida. Quem a conhecer num primeiro momento poderá dizer, pela figura doce e risonha, que talvez não, talvez seja doce demais pra ser tão forte assim. Sempre o mesmo sorriso, igual ao das fotos que minha avó Maria guarda, de quando ela tinha cinco anos, sentada atrás de uma escrivaninha de madeira, com um enorme globo que eu vejo em preto e branco, mas que, é claro, estava com seu colorido apagado pela tecnologia permitida para as fotos de então.
 Quando estive de férias em casa, em janeiro, folheando álbuns antigos com meus primos e minha tia, havia uma foto, a qual mostrei a meu namorado, onde eu estava no colo de minha mãe, com quase um ano de idade, ambas rindo muito. Não eram sorrisinhos, daqueles que são geralmente difíceis de tirar dos bebes menores, quando posam para fotos, eram gargalhadas! Talvez todo mundo tenha uma foto assim, daquelas que você olha, olha, olha, e, repetidas vezes te trazem o sentimento de ternura. Essa imagem, quando vem a minha cabeça, sempre me faz sentir esse aconchego, essa chama especial.Naquele momento, escutei ele dizer: -você não mudou nada, continua tendo o riso fácil!
Gostei dessa observação. É verdade. Claro, não sou  uma boba, que ri de qualquer situação, mas realmente, eu não sou uma pessoa amarga, nem aborrecida. Às vezes, vejo pessoas de minha convivência com uma grande dificuldade de rir. Esses dias vi no Programa do Jô, uma mulher, que conseguiu me tirar do sério, por alguns minutos somente, ainda bem. Ela falava, tentando ser engraçada, da escassa tolerância que tinha com as situações e as pessoas a sua volta. Eram coisas cotidianas, simples, que a incomodavam e a faziam reagir sempre da mesma maneira impaciente, e praticamente tudo o que ela falava, mostrava uma visão negativa, com aquela dosezinha repugnante de rancor, que as pessoas que se acham perfeitas tem. Bastou a entrevista terminar pra eu me sentir chateada. Sem querer, mais uma vez lembrei de minha mãe, que sempre me disse pra eu ter cuidado com as influências. Para eu não me deixar levar pelo pessimismo, pela idéia falsa de que viver e conviver deve ser torturante, e que, infelizmente, algumas pessoas sabem como ninguém nos fazer sentir assim.
Logo, visualizei em minha memória, nossa foto, aquela imagem afável, meiga, das gargalhadas de mãe e filha.
Lembrei então, quão forte ela é. Naquele ano, muita coisa tinha acontecido. Ela era mãe solteira, vivia numa casa com meus avós, tios e mais dois bebês, que eram meus primos. Viviam mudando de casa, porque a grana era curta, e logo, se alguém ficava desempregado, não havia outra solução que a de mudar. Enquanto isso ela fazia faculdade, trabalhava, cuidava de mim. Todos se cuidavam mutuamente, embora as dificuldades estivessem sempre presentes. Meus tios contam hoje rindo, das casas em que vivemos naquela época, uma delas tinha um formigueiro enorme no forro do telhado, que desabou por cima das camas!
 Imagino minha mãe, indo para a faculdade, o vento congelante no inverno do Rio Grande do Sul, coração corajoso, enfrentando a dificuldade de seguir estudando em meio a essa adversidade que é ser mãe de repente. Lembro de quando eu chorava no Jardim de Infância, na hora da saída, uma boba preocupada que ela não fosse me buscar! Sempre apegada, eu sentia saudade dela nesse lapso, que era a manhã ao sol no balanço da escolinha, mãozinhas geladas no cordão de ferro, que embalava minha ansiedade. Meus coleguinhas me dizendo que ela viria, viria sim. E ela vinha, de bicicleta cinza emprestada da minha tia, ou a pé.
Minha mãe, sorriso limpo, de quem acha graça em coisas para as quais eu normalmente não daria atenção, e quebra essa coisa estressante que é se apegar demais a fatos sem importância. Olhar alegre de quem vai tocar em mim uma satisfação de ser grata por estar aqui. Uma pessoa que superou tantas outras coisas, superou doenças, tristezas,  ausências,  manhãs, noites, o frio do sul e o frio da vida.
Minha mãe, mulher forte. Sorriso cativante, refletindo a alma. Dela, herdo o sorriso fácil, esse que me destaca talvez, na vida, e me salva de ser uma pessoa mal amada. Dela, riso fácil que veio de um tempo de dificuldades, onde talvez a alegria fosse uma forma de se manter forte naquele mundo onde as lágrimas seriam, aparentemente, uma fuga fácil para as vivências difíceis. Ao invés disso, ela preferiu levantar a cabeça e sorrir, e, assim, seguir, enfrentar. Com seu riso fácil, tal como o otimismo de dias pós-tormenta.
Por isso, para mim, legada dessa forma motivadora de encarar as coisas, é inadmissível ver alguém, com saúde, e perfeitamente dotado de condições básicas para viver, reclamando da vida, banalizando com mil pretextos mesquinhos, a rotina de viver.
De minha mãe, esse sorriso, ensinando a cada ser humano, que nada é tão ruim o suficiente que não possa melhorar. Que a saída existe, e esse riso estará ao final do nosso ansioso e embalado caminho, às vezes enregelado pelas ocasiões vividas, mas imensamente belo e abrasante, quando a luz emanante dele, nos encher de amor pela simples possibilidade de que ele virá, virá sim.

Para minha mãe, Clarice Ramos, dia 05/03/2011.

Luiza Versamore
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