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Segredo


A avó queria desesperadamente que a páscoa tivesse outro sentido. Naquele ano, outra vez, lhe seria quase impossível. Quase. A netinha era boba, acreditava em coelho, e, na sua cabeça ele trazia ovos da Fábrica de Chocolate do filme* mesmo, pois acreditar que ele os poria? Ora, coisa sem cabimento! E a avó queria preservar aquela inocência de não saber.

Aquela noite eu não iria dormir direito. A ansiedade batia forte em meu coração achocolatado. Eram propagandas mil ao redor, na TV e também no Armazém do seu João. No jardim de infância colávamos algodão no rabo do coelhinho de cartolina. Foi então que quase abri os olhos. Senti o barulho do coelho. Entreabri um olho, para ele não perceber. Estava quase amanhecendo. Não pode ser!

Vovó estava agachada, desenhando com giz branco pequenas pegadas no chão de parquê. Pegadas de coelho. Eu sabia! Toda aquela história pra boi dormir... E no fim vovó é quem organizava a Páscoa também! Fingi que estava em bom sono, até ela sair do quarto. Havia uma pequena indignação dentro de mim. Por outro lado, gostava da brincadeira... vou achar os chocolates, ah se vou!

No ano anterior haviam sido “deixados” dentro da lareira, esse ano os encontrei no cesto de vime, coberto com um cobertor azul. Não falei nada, durante todo o dia. Primos chegaram, contando dos seus coelhos. Não mencionei o fato. Queria contar primeiro à vovó, dizer que já sabia.

Só que havia também, uma cerca. Uma cerca de arame, nos fundos de casa, que estava furada. Tinha um rombo circular por onde minha amiga Aline, mais magrinha ainda do que eu, saía pra gente brincar de casinha, passando ao pátio de nossa casa.

Vovó viu Aline na cerca, estranhamente triste. Olhava para a algazarra armada no pátio, e pra nossos beiços lambuzados e mãos manchadas do doce delicioso. Percebi o olhar de vovó, uma perturbação surgir em seu rosto, afinal, havia esquecido de Aline, a menina da casinha de madeira, dos pés descalços, das tardes em que trocávamos todos os piolhos brincando de se balançar no balanço de madeira que vô Ary havia pendurado no pé de limoeiro, e então, eu a surpreendi.

“Eu não vou contar que são os avós que dão o chocolate da páscoa!”- Ela piscou tentando compreender, enquanto eu sussurrava em seu ouvido. Então vovó me perguntou o que eu achava de dar alguns chocolates meus para Aline. A menina da casa de madeira, de chão batido. Dos dentinhos da frente, que faltavam. Da ilusão, que talvez não tivesse mais.

Foi numa tigela redonda de margarina, que eu nem sei se hoje em dia ainda existe, que eu depositei bombons e balas que havia ganho, e vovó incrementou com um fio de barbante em dois furinhos feitos no pote, para imitar uma cestinha.

Aline sorriu. Eu falei para ela aquilo que vovó pediu- que o coelho havia se enganado de endereço, e entreguei-lhe o presente.

E, então, eu e vó Maria tínhamos apenas, mais um segredo, e o sentido da páscoa, virou outro dentro da gente.


Luiza Versamore


*Se refere ao filme- A Fantática Fábrica de Chocolate: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charlie_and_the_Chocolate_Factory 


Ruga

 Essa questão da superação. Sei lá. Vem todos os dias. Eu tinha uma mania adorável quando morava sozinha, na época de faculdade. No decorrer de cada novo e espinhento problema que alfinetasse minha cabeça, abraçava a oportunidade de sair de cabeça molhada na rua, e caminhar, caminhar... Caminhava a passos rápidos, compassados ao ritmo de minhas caraminholas, não firmava o olhar nos rostos que passavam inertes e despretensiosos, porque todos os rostos eram assim pra mim, eram figuras que se resguardavam do sofrimento alheio. Mas que sabia eu do que eles também tinham em mente? O problema da gente é agravar o que sente.

Ali que (desconfio) começaram minhas rugas da testa. Foi num dia que achei que tudo estava perdido, que eu estava perdida, que senti que meus olhos inundados não iriam resistir à próxima esquina. Busquei desesperada, ainda que na penumbra das oito horas do horário de verão da cidade pequena, um porto onde não naufragasse tão absurda vergonha de deixar lagrimar meus olhos. Era uma vitrine de uma loja de doces. Achei tão contraditório, mas não pude rir. Fixei-me em minha imagem refletida na vitrine, e percebi duas ruguinhas, uma cara abalada, uma face de abandono. A pior coisa que um ser-humano pode sentir nesta vida, é pena de si mesmo.

Pisquei diversas vezes, fingi olhar para os chocolates, as embalagens. Meu cabelo quase seco, e um ventinho no ouvido que dizia- que cara feia, se manca menina!

Não sei quanto tempo fiquei ali. E ali diversas vezes parei, pois era um lugar seguro para se pensar. Pra se tentar consertar aquela ruga. E tentar enxergar de verdade o motivo da andança. Talvez a superação não seja só passar pelo problema e vencer ao final, como diria um dicionário de autoajuda.

Talvez mesmo, a superação não seja nada. Seja uma migalhinha de esperança de que a ruga não seja permanente. E uma esperancinha de que a vitrine ainda esteja lá, porque você precisa olhar pra você mesma uma hora e encarar aquilo tudo.

Gosto de caminhar quando estou com a cabeça cheia. Pode ser um problema. Pode ser uma preocupação. Pode ser uma perseguição confabulatória das minhas próprias ideias. Pode ser uma tentativa caricata de desenho animado, do bonequinho rodando em círculos e matutando até abrir um buraco no chão.

Era algo triste, alguém poderia pensar. Mas eu falei que era “adorável”.

Afinal de contas, tudo na vida se resume a superação?

Para mim, se resume a calçados gastos, ruas sem fim, vitrines anti-rugas. No pingo gelado que cai do cabelo molhado, um mar que eu não tive licença para chorar.

Luiza Versamore

"Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar"

Chico Buarque






Santa Maria


Um dia antes da tragédia ocorrida em Santa Maria, minha cidade natal, eu estava lá. Fui ver minha irmã Elis em sua apresentação teatral, última obra sua para encerramento de seu curso de Artes Cênicas, na UFSM*.  Foi um espetáculo lindo, digno de uma Beatriz de Chico Buarque**.

Fazia anos que não revia minha cidade. Sempre morei com minha família em uma cidade de fronteira, longe dali, foi somente quando saí do Ensino Médio, no ano 2000, que pude retornar a Santa Maria para estudar. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa de meu viver.

Os jovens que vão a Santa Maria pra estudar, como brinde, ganham um “cursinho básico” para a vida. Você é jovem, tem pouca grana (como eu e minha prima Nessa, na época que moramos juntas), pouca experiência, costumes e manias ‘imutáveis’ de adolescente, questionamentos e dilemas que beiram à adultez, vontade de correr atrás dos ideais reclusos na cidade pequena de onde veio, cara e coragem pra lutar.

E então, desde o primeiro dia morando sozinho, você começa a aprender. Primeiro, o choque doméstico. Você fica espantado como pode a sua roupa toda de repente sumir! Não existe uma peça limpa! Você abre automaticamente mil vezes o guarda-roupa esperando que elas se materializem limpinhas, cheirando a amaciante Fofo, e então, quando a última toalha limpa acaba: BUM! O que fazer? Parece muito simples: lavar à mão? Não é. Juntar dinheiro pra comprar uma máquina de lavar? Entre comer e pagar o Cursinho... Não é.

Estudante bom que se preze, emagrece uns cinco quilinhos no primeiro ano fora de casa! Primeiro porque acha que Nissin Miojo vai dar conta até o final da faculdade. Segundo porque acha que nunca vai ter uma dor de barriga brutal em função do velho Xis da esquina requentado (e vai parar no Pronto Socorro por conta disso). Terceiro porque às vezes ele tem que morar em um pensionato esquisito, onde a dona não deixa ele usar o fogão (sim, isso existe). E, adicionando um quarto elemento, os lugares que existem para os Universitários comerem a um preço razoável, não tem uma comida tããão razoável assim.

E também tem aquele maldito, chato e insuportável sono de adolescente. Em virtude de que agora você deve cuidar de si próprio sem direito a uma folguinha (e, se trabalha, ou estuda pra passar num vestibular de Medicina, mais), é aqui que a coisa desanda. Porque agora você divide tarefas com jovens como você, dentro da República onde mora, e hoje é seu dia de limpar o banheiro. Porque hoje é seu dia de reunir a grana da galera e enfrentar a fila do banco pra pagar as contas, antes que cortem a luz. Porque hoje, mesmo com enxaqueca, é seu dia de conversar com o cara da imobiliária pra ele fazer um conserto no apê. Não tem o dia da mamãe ou da vovó reconfortando o cochilo despreocupado no sofá da sala. E você “cai duro” na cama, dormindo em meio ao amuado pensamento, questionando se foi a melhor hora de sair de casa.

Então um dia você volta à sua cidade, como eu voltei. E, andando de ônibus até a Cidade Universitária, você se lembra de tudo, e ao invés de chorar, sorri. E agradece por ter vivido aquilo. Passa pela Avenida Presidente Vargas relembrando o velho tênis que percorria a cidade atrás de uma aula de Matemática melhor. Sonhava em que sobrasse uma graninha do apertado orçamento estudantil pra poder comprar uma calça jeans legal, quando via a loja bonita, na esquina do Calçadão. Ou talvez fosse melhor investir no rodízio de pizzas, lá na Medianeira. Ou ir numa festinha ou barzinho, comemorar todos os novos aprendizados da vida, incluindo aquela nota boa na última redação.

Não sei o que é mais injusto nesta hora. Ser pai e mãe e compartir uma dor fulminante dessas, pensando em todos esses familiares e sua perda inestimável, ou ser filha e filho, e pensar que nós vivemos como esses filhos e filhas. Nós estivemos lá, em Santa Maria, durante anos, aprendendo, realizando, tentando o nosso melhor. Nós acordamos no meio da noite, barriga roncando e sonhos incompletos, tentando nosso melhor. Nós não desistimos, apesar de tudo o que vivemos, porque nossos sonhos eram grandes demais para permitir a derrota. Nós fomos como eles, e não permitimos a estagnação e a desculpa furada de não poder fazer nada porque só podíamos fazer um pouco.*** Nós aprendemos.

Saí de Santa Maria no sábado à tarde, algumas horas antes do incêndio na boate. Estive a viagem inteira pensando em tudo que vivi, ora me emocionei, ora quis gargalhar. No dia seguinte, o fato horrível me acorda, e eu agradeço por minha irmã e meus primos estarem bem. E foi só o que eu consegui fazer.


Foi em Santa Maria que aprendi a lição mais valiosa de minha vida, e tão antagônica a este momento. Nunca esquecerei. Eu aprendi a viver.

Luiza Versamore

                                           Arte de Alpino

*UFSM: Universidade Federal de Santa Maria
**Beatriz de Chico Buarque: confira aqui
***citação de Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco.


Distimia



 A depressão é a doença da alma mais egoísta que existe. Uma pessoa em depressão não causa mal somente a ela, torna-se um cruel algoz do bem-estar alheio e familiar. Mas o pior transtorno ligado à depressão é o Distúrbio Distímico ou Distimia, entidade dificilmente diagnosticada, e que quase sempre resulta da observação feita por um familiar.

Resulta que este transtorno, por se arrastar por mais de dez anos na grande maioria das vezes carente de diagnóstico, acaba sendo aceito pelo próprio paciente como seu estado normal de ser. Acaba-se tornando cotidiano, suportável, confundido com mau-humor crônico. As pessoas ao redor até percebem que algo vai mal, mas como o distímico tende a destratar quem pretende alertá-lo, ou achar irrelevante qualquer observação a respeito, ninguém se atreve a tentar despertá-lo de seu estado “normal” de ser.

Trata-se de uma manifestação mais lenta da depressão. O distímico vem durante anos cultivando aspectos depressivos que são aparentemente mais leves, mas também mais duradouros se comparados a um estado de Depressão Endógena, que é a depressão mais marcada, aquela que se sente, por exemplo, em algum episódio de luto ou perda, quando o sentimento de tristeza se estende por mais de dois meses após o infortúnio. Inclusive as duas podem existir concomitantemente, em um quadro chamado Depressão Dupla, mas sempre a Distimia segue persistindo, ou antecipa a endógena. Assim, o indivíduo acaba resolvendo os episódios de depressão isolados por algum problema ou stress, mas não consegue transpassar a distimia.

Por uma série de fatores as duas modalidades depressivas passam a se confundir, mas não se pode esquecer que as duas fazem parte de uma classificação chamada Distúrbios do Humor, e são consideradas doenças depressivas, ou seja, as duas têm componentes depressivos comuns. Distúrbios do Humor são perturbações na regulação do humor, do comportamento e do afeto, segundo o DSM-IV*. 

O distímico, ao contrário do que se pode pensar, não é triste. Ele passa essa imagem constantemente, mas o que realmente sente é um sentimento de vazio, indiferença e desinteresse permanentes. Esse comportamento é alternado por poucos dias no mês em que sente bem-estar consigo ou na presença de outras pessoas. Ele deixa claro que não se importa em estar sozinho, e, com isso, afasta os demais, estendendo seu duro humor por semanas, aparentemente sem sentir culpa.

Uma característica que chama atenção no distímico é o pessimismo acentuado em relação às pessoas. Não quer esforçar-se por ser querido, pelo contrário, acha que é uma perda de tempo dar atenção, inclusive aos que ama. Não tem um pensamento definido quanto a isso e pode até contra arrestar essa ideia, mas suas atitudes de impaciência e irritabilidade facilmente o delatam. Experimenta a anedonia, que é a falta de prazer nas atividades que antes lhe davam alegria. Alterações digestivas, do apetite e do sono são comuns neste transtorno, com comprometimento da concentração quase sempre prevalente.

Mas, você deve estar se perguntando, se a pessoa sente-se “normal” com a distimia, porque não deixá-la viver assim? Bem, foi assinalando o aspecto egoísta da doença que eu comecei esse texto. O distímico simplesmente não se dá conta de que sua alma está doente. Não se importa com isso, acha que não está afetando ninguém. Vê o mundo que criou para si como uma forma de se proteger da dor, não percebendo que injustamente seus entes queridos sofrem por ele.

Ajudar ao distímico é muito mais complicado que ajudar ao depressivo endógeno. Isso porque simplesmente o indivíduo distímico segue sua vida como se nada estivesse errado. Trabalha, atravessa os dias emburrado, cumpre tarefas cotidianas sem nenhum prazer, mas segue vivendo. O depressivo marcado não consegue desempenhar atividade alguma, pede ajuda porque evidencia seus atos depressivos desesperadamente, se observa nele uma mudança brusca de comportamento. Já o distímico permanece o mesmo de alguns anos atrás, todos ao redor se acostumaram com seu jeito, alguns inclusive nunca o perceberam diferente.

Mas, mais difícil do que essa pessoa aceitar sua distimia é fazer com que ela queira MUDAR isso. Afinal quem não faz questão alguma na vida de corresponder às necessidades de afeto dos que o rodeiam, sempre sentindo que viver é cumprir obrigação de acordar e dormir, e muito menos se sente agradecido por ter saúde e meios sociais básicos disponíveis ao seu viver, terá uma grande barreira na visão de que ALGO ESTÁ MAL. Passará mais anos de vazio e solidão, culpando os demais por não terem tido valor suficiente de aguentarem seu descaso consigo mesmo.

O grande problema da distimia é que ela não é considerada pela medicina atual como tão perigosa à saúde mental do indivíduo como a depressão endógena. Isso ocorre porque a depressão endógena, por ser causa frequente de suicídio, pode ser abreviada pela intervenção de um familiar assim que se manifesta, resultando em tratamento imediato. A distimia não. A distimia vive dentro do indivíduo, matando suas relações interpessoais e deixando que ele exista, mas não viva. Não o desespera, não o exaspera.

É tão egoísta que não dói em si, e sim nos que o amam.


Luiza Versamore


                               
                              Arte de Heather Horton, confira mais aqui.


 "A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana."  Vinicius de Moraes


*DSM-IV: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- 4º Ed.


Era uma vez



Considero um problema havermos sido criadas como princesas. Sempre esperando um príncipe, um ser salvador de nossas próprias angústias e que tem todas as respostas que nossa torta psique não consegue resolver porque inconscientemente estamos dependendo de um grande amor para viver. Dependemos sim, mas deveria ser de um grande amor próprio. Eu prefiro a personalidade da mulher guerreira, e não a da princesa.

A princesa é uma constante vítima do infortúnio amoroso. Desmedidamente incoerente ao amar seu homem, ela passa a vida carregando uma falsa bandeira feminista, negando que ele é a razão de seu viver, mas enfatizando ao mesmo tempo, em cada ação sua o quanto seria capaz de morrer sem ele. Vive pra ele. Seu círculo de amizades é o dele. Sua programação do final de semana também. As viagens, o que conhecerão, tudo o que for mais conveniente a ele. Aprende a conceder reclamando, mas concede. Fica chata porque reclama toda hora. E concede. Reclamar se torna uma válvula de escape pra convivência corriqueira. Ele sai, vive, realiza projetos, tem objetivos isolados dos dela. Ela o espera, acomodada em sua torre de resignação e certeza. Porque ele perambula, vive novamente e continua realizando seus projetos, mas volta de vez em quando para ver se a princesa continua em posição impassível e ela está, inclusive ela tem certeza que é dona dele e de seus pensamentos, por seu retorno. Para evitar intensas discussões do que não vai bem, nem entram no mérito da questão. Príncipes e princesas não sabem, simplesmente, como é o sabor doce da reconciliação depois da briga passada a limpo. Eles ignoram desentendimentos, certos de que assim, colaboram para o seu amor durar. E envenenam, a cada dia, o cavalinho branco cansado de suportar o conto de fadas, descobrindo que ele não existe como eles imaginavam.

Deveríamos ter sido criadas como guerreiras, escutando histórias sem “felizes para sempre” obrigatórios ao fim da linha. Como guerreiras que não se vitimam ao discutir a relação. De espada na cintura, pra não esquecer que deve lutar para enfrentar as barreiras do relacionamento. Deve lembrar que o relacionamento verdadeiro não será linear. Na linha muito reta há um desgaste paulatino. A linha bamba sim, sempre com altos e baixos é que se torna maleável a seguir. Os guerreiros têm contrapontos a debater, sempre. Não acham que a estagnação resulta de um equilíbrio, pelo contrário. A estática é sempre perigosa para eles. A guerreira sabe da sua imperfeição. Na medida em que acredita no por-enquanto bem feito, e não no infinito doentio, vê que precisa mais de si, então calça o escudo perto do coração. Seu guerreiro tampouco é perfeito. De muitas formas, existirá a possibilidade de se magoarem, e eles sabem disso, como seres imperfeitos. A guerreira não fecha os olhos, enfrenta as lágrimas, cai e afunda, mas escolhe a coragem como sua melhor amiga no final da jornada. E com a fronte adiante, ela segue mais forte.

Não é fácil ser a guerreira. Não é fácil ter coerência em meio à paixão arrebatadora que virou um morno amor. Ter coragem de assumir uma postura antagônica às histórias da carochinha. Relacionamento é batalhado no dia-a-dia. E se não der certo, por um monte de motivos acumulados, a guerreira sabe que continuará a lutar, por si própria.
Mas mais difícil ainda é ser princesa. Porque vai terminar seu relacionamento achando que acabou sua vida. Que perdeu tempo. Não aproveitou para crescer. Descrê completamente das pessoas. É injusta consigo achando que fora sempre justa com todos. Tudo por ter alimentado uma perspectiva infalível.

Como mulheres, qual será a estrada afora que elegeremos seguir?

Luiza Versamore



Até logo!


Uma nova oportunidade. Uma possibilidade de fazer diferente. O fato é que no Ano Novo, ninguém quer continuar igual, todos querem melhorar de alguma forma. Seria perfeito se esse desejo permanecesse flamejante em nosso pensamento ainda depois de todas essas festas, promessas, e planos...

Faz parte da ventura humana almejar alguma coisa. Desde a personalidade mais infame, até a mais engenhosa, não existe uma alma neste mundo que não queira realmente apegar-se a um objetivo. Pode ser que seja apenas o de sobreviver. Ainda assim, nesses últimos dias de 2011, a sementinha dos desejos vai tomando forma e deixando crescer dentro da gente uma vontade bem grande de ótimas realizações.

Como último post do ano, quero relatar um pouquinho dos fatos marcantes da minha vida neste ano que passou...

Bem, meu ano começou todo brando e calmo, eu e meu “namorido” morando em um país bem diferente, tentando viver as dores e as delícias de dividir o mesmo espaço, e, curiosamente, apesar dos pesares, conseguimos nos sair muito bem. Aliás, se não tivéssemos nos dado essa força, teria sido bem mais difícil passar pelo que viria adiante. É, porque, bem sabe quem já “casou”, o quanto um relacionamento verdadeiro custa à inveja alheia. Sempre você encontrará alguém sem nenhum conhecimento de causa pra vir dar “pitaco” na sua vida, como se dela soubesse mais do que você. Mas encarei isso como uma forma de mediocridade e fui adiante.

Em março postei pela primeira vez aqui no blog, um texto antiguinho que eu tinha escrito no meio de uma aula chatinha. Não postei tanto como eu supunha que seria, mas me empolguei bastante pra escrever algumas memórias. Conheci blogs interessantes e blogueiros amigos, cujo incentivo foi brilhante e fortalecedor!

Quase no meio do ano, tivemos alguns percalços, um vilão foi desmascarado (leia aqui), amizades se tornaram mais fortes, novas amizades começaram.  

Tivemos um encontro MARAVILHOSO, quando nossa família veio prestigiar nossa formatura, e foi um dos períodos de minha vida mais feliz, exatamente por estarem conosco. Foi nesse momento que pude perceber que realmente, somente as pessoas que nos amam vão estar com a gente apesar de tudo o que somos. Foi quando vi que todas as horas de dúvida, ou toda a sensação de incapacidade, e toda a espera não foi em vão. E pude ver que, mesmo com tanta coisa por vir e realizar, valeu cada segundo viver esse momento.

Depois voltamos para o Brasil, e, ao sentar na cadeira de balanço de vovó, eu enchi minha vida novamente de combustível. Foi no soprar do ventinho de outubro na sala vendo vô Ary cochilar, que eu tive certeza de algo tão angustiante, mas eu ainda não sabia (e agora vocês vão rir): eu cresci!

Gente, eu cresci! Foi tão doloroso. Mas teve seu momento de alegria também. Me dei conta de como o tempo passa, a vida continua, algumas coisas mudam bem devagar. Também percebi que é fácil não nos darmos conta disso, se na nossa cabeça não houver espaço pra mudança, estaremos fadados a estagnar! E eu me dei conta que ninguém pode me fazer ser melhor, mas eu posso. É, foi assim mesmo, eu ainda estou chocada. Descobri que tem uma hora que as desculpas não têm mais lugar, nós temos que nos empenhar, a vida não vai esperar não.

Fui descobrir que a felicidade não está em um lugar, nem em um sonho, nem em uma coisa. Está em alguém. Então, posso dizer que, somente por essa grande descoberta minha, esse ano valeu mesmo. Meu alguém é o Rafa. Meu alguém é minha família. Meu alguém é uma amiga que mora longe. Meu alguém é quem eu possa ajudar de coração. Meu alguém é quem preze minha amizade desinteressadamente, apenas.

Então, essa foi uma síntese do meu ano. Agora chegou a hora de almejar ter a força suficiente pra continuar. Que tenhamos todos um Ano de 2012 excelente.


E, porque eu cresci, vou tentar fazer melhor.

Luiza Versamore



Uma Resposta

Em meio ao ruído ensurdecedor de tanta coisa que acontece no mundo, eu me pus a pensar no nosso propósito de viver. 

Na semana que passou, no domingo, fiquei sabendo de uma triste notícia que me surpreendeu e me comoveu de um jeito tocante. Uma prima querida, nova ainda, faleceu lá na minha cidade, no Rio Grande do Sul. O que eu lembrei na hora que minha mãe me contou o ocorrido: uma luz imensa, que provinha de um sorriso encantador e vívido.

Fiquei a pensar no tempo. Será que vivendo longe estarei eu perdendo o tempo necessário que deveria estar dividindo com meus seres queridos, já que para mim, o  mundo parece não ter sentido sem eles? Será que o tempo não significará mais nada do que algo que faz a gente ir envelhecendo e perdendo nossos segundos a cada dia? Pensei, pensei, pensei. Mas não fiquei contente. Não fiquei feliz com as perguntas, na verdade. Porque as respostas me parecem cada vez mais claras: nossa função no mundo é simplesmente... viver!

Uma missão nessa vida, é claro, todos nós temos. Essa busca incessante do ser-humano de sobreviver num mundo tão adverso de situações é exatamente o que nos torna tão ávidos a ela. Na luta de cada dia, às vezes deixamos de lado questões profundas referentes ao nosso existir. Menosprezamos muitas vezes uma chance pequena de fazer diferente. Essa busca da felicidade através do estudo, do trabalho, do bem-fazer. Podemos fazer tudo isso junto? Ainda lembro do ego inflamado de adolescente, quem podia com a gente? Nós revolucionaríamos tudo! “Mas, espera aí, Senhor Tempo!” “Posso dar uma palavrinha com o Senhor?”  Não eram bem essas as etapas que eu esperava transpor no meio do caminho. Também não eram tantas as noites em claro, pensando demoradamente na vida. Não era esse “tantão” assim de paciência que eu achei que o viver exigiria, e mais ainda, a convivência com o próximo, por vezes, mil léguas longe de uma pequena evolução (emocional).

O tempo, a vida, os prazos que determinam tudo. Viver, pra mim, é buscar evoluir. Evoluo, na medida em que busco dentro de mim esse alguém que se desprovê de pequenos egoísmos e julgamentos fúteis acerca dos outros. Sigo evoluindo quando passo a ser um instrumento de carinho e paciência, essa última, demasiadamente esquecida nesse mundo de tantos porquês.

E a vida, bela, totalmente luz.
Presumo então, que por isso vale a pena. E é isso o que fica: uma saudade, um sorriso, uma felicidade de poder ter dividido num instante, aquele imenso sorriso.

Luiza Versamore



”Ninguém se eleva, sem esforço máximo da vontade, dos campos do hábito para as regiões iluminadas da experiência. Entretanto, ninguém atinge as múltiplas regiões da experiência sem passaportes adquiridos nas agências da dor.” Emmanuel


Ao fim do dia...



Não dei chance
A uma vida convencional

Despertar, respirar, cumprir

Fui em busca

De um sentido inventado

Abolindo o banal

Um motivo divagado

Do que era essencial

Vivi, senti, não consegui

Dar chance ao vazio

De ser

Normal!

Luiza Versamore


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