UM MUNDO DE PORQUÊS

Ontem terminei de ler "Os 13 porquês" de Jay Asher. No começo achei que seria mais um romance descartável do que uma história que fizesse algum sentido real. Bem, felizmente me enganei. O romance é narrado, ou co-narrado, por duas personagens principais, o jovem Clay e sua ex- companheira de colégio, Hannah Baker, cuja presença predominante aparece depois de suicidar-se, em uma gravação onde ela explica as razões que a levaram a cometer tal ato.
Hoje, aos 28 anos, sabendo um pouquinho mais da vida do que eu sabia quando tinha 13, várias vezes parei em meio a narrativa, achando que cada explicação que dava Hannah para seu ato desesperado, estava sendo realmente muito supérflua, ou seja, que ao fim, analisando friamente, não sobravam de nenhum daqueles porquês, uma razão derradeira para justificar seu suicídio. Eu disse: analisando friamente. De repente, voltei no tempo, em minha memória, e lembrei do caos total que vivi dentro de mim quando era mais jovem. Nunca tentei suicídio e não tive tal inclinação a fazê-lo, mesmo tendo passado um período difícil de depressão ( e único, graças a Deus) durante um ano da minha adolescência. Mas, naquele momento, a mim parecia que eu tinha todas as causas do mundo para isso. Realmente, TODAS as razões que eu tinha, hoje me parecem completamente idiotas, insustentáveis. Eu pensava que não deveria mais viver, que a vida não fazia sentido. No começo vivia chorando, tudo era motivo para tristeza. Sendo criada por meus avós. Uma vó com transtorno obsessivo-compulsivo, difícil de conviver com todos. Eu, uma adolescente perdida, romântica e um pouco dramática. A beira de descobrir tudo o que viria pela primeira vez. Meu mundo era um quarto cor-de-rosa, uma pasta de papel de carta e um cd da Laura Pausini. E uma melhor amiga, que me salvava da solidão interna que eu sentia, e que, tempos depois, por erros meus que agora não vêm ao caso, eu afastei de meu lado.
De um dia para o outro eu já não era mais uma menina. E, no outro dia eu voltava a ser. Com minha avó o diálogo era difícil, ela achava que tudo era bobagem. Minha mãe trazia pra eu ler revistas "Querida", "Carícia", então tudo o que eu sabia sobre adolescer era o que estava escrito ali, aparentemente meu pequeno manual de salvação.
A maioria dos temas e matérias dessas revistas, eram e acho que hoje ainda continuam sendo, eles, os meninos. Porque estavam sempre falando sobre virgindade, primeiros beijos, menina que fugia de casa com o namorado, mães novas solteiras, testes de qual o seu tipo de namorado perfeito, letras de músicas românticas, presentes para namorados, poesias para namorados, dúvidas sobre relacionamentos com ficantes e namorados, como entender a cabeça dos namorados. Aquela balela toda parecia que era pra convencer a gente de que o mundo é um grande luau, cheio de príncipes e princesas, influenciando a gente a colocar no fundinho do subconsciente que aquele era o objetivo da vida de uma adolescente: ter um namorado. Prato cheio pra uma mente romântica. Mas minhas dúvidas, na maioria das vezes, eram sobre outros temas da vida, pra mim, muito mais importantes. É claro, de vez em quando, vinham matérias sobre leituras, discussões sobre separação dos pais, mudanças do corpo, e crônicas de adolescentes, que escreviam aquilo que pensavam realmente. Mas a maioria tentava, não sei se por querer, implantar na nossa cabeça um mundinho que não era assim. Ou seja, não era SÓ isso. Eu queria entender naquela época o que minha irmã adolescente entende hoje, perfeitamente. Que era uma fase. Todos diziam que era uma fase, mas ninguém explicava porque era uma fase. Todo mundo dizia que eu era "aborrecente", mas não sentavam e diziam: peraí, seu corpo tá em um momento de transição! Seus hormônios estão tentando se equilibrar, por isso uma série de coisas estranhas vai acontecer, principalmente na sua cabeça. Vai ser assim e assado. No caso de que se fossem meus pais a conversarem, eles falariam de como foi com eles. O que eles sabiam ou não. O que eles descobriram. Na revista, ler não era a mesma coisa. Eu entendia tudo, mas interpretava de outro jeito. E quando você é adolescente, é assim mesmo, você interpreta de uma maneira totalmente diferente da sua amiga, que por sua vez interpreta de maneira diferente da outra.
Assim, recordando todos esses momentos angustiantes de ser adolescente, eu me peguei passeando novamente por aquele mundo, talvez em alguns aspectos, o mundo de Hannah Baker também, onde ela não tinha muitas pessoas que a escutassem. Infelizmente, assim como aconteceu com a personagem, também ocorrem todos os dias os casos de suicídio de jovens. Se formos analisar sobre um aspecto biológico, eu, como estudante de Medicina, hoje sei que a maioria dos suicídios decorrem de uma situação de desequilíbrio orgânico de neurotransmissores cerebrais, dando como resultado uma depressão endógena, um tipo de depressão severa, cujas únicas medidas de tratamento efetivo, são medicamentosas. No livro,  Asher consegue aliar a trama vivida pela suicida a um apelo de grande utilidade a pais e adolescentes, mencionando por diversas vezes a sintomatologia que cerca essa doença, cada vez mais comum na atualidade. Tenta abrir os olhos das pessoas que convivem com adolescentes, tanto professores, como pais, como os próprios amigos; para aprenderem a enxergar além do que podem. Coloca a personagem frente a momentos extremos, dos quais a maioria de nós passou nessa época, mas sempre focando nos sentimentos dela, e apresentando-os como exclusivos. É claro, nem todos os adolescentes "sofrem" por adolescer. Mas, se a gente puder perceber esses sinais naqueles que o fazem, poderemos mudar muita coisa.

                                                 Luiza Versamore


Dois vídeos interessantes sobre o assunto:
1) http://www.youtube.com/watch?v=xHz15TaotXU&feature=endscreen

2) http://www.youtube.com/watch?v=VkqJ0Ahx8RM&feature=relmfu

7 comentários:

Mariane Magno disse...

Muito boa sua postagem. Cheguei a refletir sobre isso ainda essa semana ao conversar com uma recém adolescente que por sua vez acreditava ser os seus problemas os piores do mundo. Coisas relativamente pequenas hoje para nós que já passamos por isso e então ignorados. Tentei falar para ela que ia passar e q ela não fizesse nada sem pensar muito bem.

Mas o adolescer é realmente complicado ao mesmo tempo em que você quer ser adulto ainda possui atitudes infantis, o que é muito normal.

Adorei, estou seguindo. beijoos ;*
Pensamentos complexos *-*

. disse...

Gostei.. (y)

Luiza Versamore disse...

Agradeco a leitura e tamb`em os coment`arios! Voltem sempre!
Beijos!

Rosirma disse...

Nossa, hj com o trabalho mais tranquilho, abri meu e-mail e olheir o teu blog, nossa estou emocionada!!
Amei!! Um beijão

Luiza Versamore disse...

Que bom que vc gostou Ro! Com certeza virao novas historias da nossa infancia!! Aguarde! Grandes beijos com saudades mil!
Luiza

Paulo* disse...

Muito bom seu blog, super criativo!... já estou te seguindo tá.
Da pra ver que você escreve aquilo que gosta, suas histórias são muito boas kkkkk

Bjoo

Luiza Versamore disse...

Paulo!
Obrigada pelo comentario,
sucesso pra vc no seu blog!
Beijos,
Luiza

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