Com palavras não sei dizer...



 Cheguei em casa naquele final da manhã, estava irritada por alguma coisa que não lembro (tamanha importância que não tinha), estava com quinze anos, dramaticidade total, passei pela cozinha onde minha avo Maria começava a fazer o almoço, escutei um carinhoso “Oi, filha!”, e no meu egocentrismo desvairado de adolescente, olhei-a de cara fechada e entrei em meu quarto. Ora, como não estivera o começo do dia de acordo com minha vontade, porque haveria eu de ser carinhosa também?Aliás, aquela música tocando no rádio, enquanto a panela do feijão chiava, aromatizando o ambiente de um sabor de almoço em família, me desagradara profundamente. Por que escutar música se o meu mundo carecia de um silêncio profundo onde eu pudesse pôr meus pensamentos em ordem? Nesse balde imenso de egoísmo, assomei de novo à porta da cozinha e desdenhei das canções, e, irritada, perguntei a minha avó se ela nunca se cansava de passar as manhãs escutando aquele “péssimo” repertório! Ela me olhou, séria, e abaixou o volume do rádio. Então, como a pessoa que melhor me conhecia, começou a indagar o porquê de eu estar me comportando daquele jeito. O fato, é que eu acabei contando a ela os meus motivos, e depois de um breve choro magoado, e uma rápida conversa consoladora, quem me jogou um “balde”, foi ela! Um banho de otimismo, de males espantados! Envergonhada, elevei de novo o botão do volume, e aquela música instrumental de almoço teve outro significado.

Em meus dias de menina, não me recordo sequer um dia em que estive sem escutar com ela alguma embalada melodia do “Rei”. Duas memórias relevantes: a primeira eram das “siestas”... Eu tinha uns cinco anos, e o cochilo depois do almoço, e da limpeza da cozinha, é claro, pois vó Maria não dorme enquanto ainda tem “serviço”, (até hoje!), era ninado por Roberto Carlos! Que coisa mais antiga aquela música, a maioria não vai lembrar, mas tudo bem, dizia:

 
“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito

Que eu sonhei em toda a minha vida

Sonhei que todo mundo vivia preocupado

Tentando encontrar uma saída

Quando em minha porta alguém tocou

Sem que ela se abrisse ele entrou

E era algo tão divino, luz em forma de menino

Que uma canção me ensinou... La, La, La, La, La...”



Eu nunca dormia nadinha nessas “siestas”, ela me dava uns desenhos pra pintar e eu ficava quietinha, no chão ao lado da cama, entretida colorindo, enquanto ela tirava a soneca bem merecida depois de haver feito o melhor feijão do mundo. Na verdade, eu estava prestando super atenção na letra da música, fazendo uma viagem em minha cabeça, visualizando aquele menino entrando na casa do Roberto Carlos, que no meu pensamento, estaria tocando violão no sofá da sala, o menino simpático sorrindo pra ele, uma luz ofuscando a visão do cantor, maravilhado com aquela visita... esse pensamento ainda hoje me vem à memoria quando a escuto , em alguma sessão “sarcófago” na madrugada, é claro. Eu me sinto como se estivesse lá naquele quarto ainda, usando escondidinha um papel-carbono que ela usava pra fazer seus artesanatos.

Outra do Roberto que marcou (que era mais da vó Maria, que do Rei a essa altura da vida), foi “Como é grande o meu amor por você”.

Um dia aconteceu que a “tia” da segunda série avisou em aula que a turma toda iria cantar essa letra no Dia das Mães, como homenagem. Lá chegava a tia Beth no Salão de Atos do Colégio, com um toca-fitas gigante (que coisa velha) e começava a cantoria. E eu ainda hoje tenho uma foto deste dia! Na parte da estrofe a gente botava a mãozinha no coração e depois oferecia o “amor por você” para as mães. A foto até teria saído bonita não fosse um “porta-moeda” (de pulso!) cor amarelo-fosforescente-restart com fecho preto que estava super na moda, e uma calça fusô vermelha-restart de lã (credo!) que pra ficar mais “delicadinha” ainda, tinha um “big” elástico branco encaixando no pé, pra não subir durante alguma correria no recreio. Mas o que importa é que vó Maria estava lá, toda faceira, meus olhinhos encontraram os dela quando saí daquele palco de madeira ao seu encontro, ela muito emocionada pelo evento.

Fiquei lembrando disso tudo, todos os dias eu saindo pra ir à escola, voltando pra casa, dando um beijo na hora de dormir, ela deitadinha já com o rádio bem baixinho tocando no ouvido... Temos como repertório de nossa convivência um milhão de músicas, das quais com certeza milhares são de Roberto, outras milhares mais antigas, de vários artistas (daí que eu tenho uma fixação por discos antigos), e todas nos fazem recordar uma à outra. Aliás, enquanto estou aqui escrevendo, ela esta lá, espantando algum pensamento das saudades que isso tudo nos deixou, certamente ouvindo alguma coisa que gravei no PC, e que ela ouve, ainda com alguma hesitação, pois não confia em CDs que não são originais...

Coisas de vó Maria: o feijão mais gostoso, a preocupação mais sincera, a mania de musicar a casa, e oferecer-me as tintas com as quais fui aquarelando pelo mundo, um pouco fosforescentes de vez em quando, mas iluminadas como sempre.



Luiza Versamore










13 comentários:

Geraldo de Lima disse...

Luiza, desculpe a demora em comentar por aqui... Olha, seu post está maravilhoso, diria até mesmo que está emocionante... Muita coisa boa, muita pureza nesse relato seu sobre a sua avó e as músicas do Roberto... Olha, sou seu fã. Além de você escrever super bem, o sentimento que você passa quase nos faz enxergar os acontecimentos descritos... Abraço amigo, cuide-se bem... Cuide-se sempre!

Danielle disse...

Adorei seu blog,vou voltar mais vezes.
tô te seguindo me segue também!

Luiza Versamore disse...

Geraldo, obrigada pelo comentario, o elogio `e reciproco, porque tambem gosto muito de suas postagens!
Grande beijo, apareca sempre!
Luiza

Luiza Versamore disse...

Danielle!
Obrigada por seguir!
Ja to seguindo tb!
Grande beijo!
Luiza

Luiza Versamore disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiza Versamore disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariane Magno disse...

Nossa que linda essa postagem, me fez lembrar tanto da minha vó. Da comida caprichada, da frase sempre dita: "Você esta comendo tão pouco!", do sorriso, do abraço, sinceramente não sei o que seria de mim sem minha vó.
As músicas parecem ter a finalidade de marcar momentos, lembro me de um música chamada : Saga de um vaqueiro.
HUASHUAS' ESSA música marcou minha infância, lembro do meu pai com seu raidinho de pilha ouvindo essa música. Eram momentos tão simples e felizes *-*

Amei linda, perfeita postagem lia e sorria ao lembrar de tanta coisa *-*

Luiza Versamore disse...

Sim Mari, a musica tem mesmo esse poder de nos levar de volta pra um tempo de saudades... fico feliz que vc tenha gostado do post, e tb lembrado da vo e do pai!
Grande beijo linda, volte sempre aqui!
Luiza

нєllєи Cαяoliиє disse...

com palavras não consigo dizer,a grandeza disso tudo :)
Lindo Post!
Beijo

Luiza Versamore disse...

Obrigada Hellen Caroline! Tambem gostei muito de seu blog! Seja bem-vinda aqui! Beijos
Luiza

Arte'Ros disse...

Amei!!! E agradeço a Deus por ter comido esse feijão maravilhoso e ter conhecido a pessoa maravilhosa que é a tua vó. Sou grata a Deus por ter colocado pessoas extraordinárias na minha vida como você e como a vó que por costume de ver tu chamar ela assim, acabei chamando tb e tenho um carinho enorme por ela. Adoro vc do fundo do meu coração. Beijão

Luiza Versamore disse...

Que bom poder ler tuas palavras de saudade, querida Ro! `E verdade, muitas vezes estiveste comigo nessa infancia de musica e sonhos! Tbm adoro vc, sinto orgulho imenso por quem vc se tornou, uma amiga pra sempre.
Saudades,
Beijos!
Luiza

Suéllen Pereira disse...

Adorei essa postagem! Esse relato com as musicas do Roberto e sua av;o tem muita emoção adorei!!

Aproveito para agradecer pelos selinhos que me mandou!
E mais!! Estou mudando o layout do meu blog e adicionando a página de parceiros!
Adicionei você como TOP parceira! Me adicione aqui também?!

E caso algum blogueiro se interesse em ser parceiro do "Entre um drinque e outro..." basta adicionar nossa bandeirinha e mandar a deles por e-mail ou comentário!

Bjaooo Luh, continue o ótimo trabalho!

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